sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Retrato de uma solidão*


A casa está em silêncio, parece maior agora. É estranho: há pouco quase não comportava as vivas almas que tumultuavam o clima de monastério que reina durante o ano todo.

Cá estou de novo, sozinha, empurrada para esse poço de solidão também chamado de velhice. Os netos se foram assim como os filhos se foram um dia.  

Sempre foi assim. Presentes, ceia, um beijo formal no rosto, algumas horas jogando conversa fora. De repente olham o relógio e dão um salto do sofá, cada qual com a sua justificativa. “Tenho que ir: negócios”. “Preciso passar uns dias na cidade do meu namorado”. “Vou pegar uma praia com os amigos”. Nem se dão ao luxo de renovar os argumentos do ano anterior. Simplesmente se vão, como se nutrissem uma necessidade irrevogável de ir.

Essa parece ser uma casa de partidas, nunca de chegadas. No máximo um porto de apoio. Eu fico com a sensação de que tudo não passa de obrigação, uma formalidade imposta pelos pais ou pela consciência. Deus me perdoe por pensar assim. Eu sei que eles me amam, mas fico triste por nunca ter tempo de demonstrar o meu afeto.

Penso em palavras de amor, seleciono memórias e ensaio chantagens na tentativa de fazê-los voltar em breve. Porém acabo no sofá, à deriva, sem acompanhar a conversa, tendo que suportar os descabidos flertes entre primos e primas, perdida entre a farra dos que até ontem eram crianças, hoje homens feitos e mulheres belíssimas.

Não está longe, porém, o dia em que não precisarão mais vir. Ou melhor, virão pela última vez, às pressas, diante da notícia inesperada. Confesso que não ficaria incomodada se acontecesse durante um dia útil.

E que o meu sorriso irônico no caixão simbolize – para a perplexidade de todos – a morte da velha desculpa: “Estou muito ocupado com o trabalho. Só nos veremos no feriado”. 

* O texto obteve o 3º lugar na categoria Crônica no VI Festival Literário de Avaré. 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Fogo no Céu*


* Crônica publicada na edição 1160 do Jornal Observador

As luzes apareceram por volta das 22 horas. Era uma noite nublada e de qualquer ponto da cidade era possível avistar os dois grandes círculos que, misteriosamente, faziam traçados aleatórios no céu.

   Houve um alvoroço nas ruas. “Que diabo é aquilo?”. “É o fim do mundo!”. “Oh meu Deus, uma invasão alienígena!”. “Nostradamus previu isso!”. “É nada: é bíblico. Apocalipse, mas não me lembro o versículo!”. “Não fale em diabo numa hora dessas, homem!”. “Tende piedade de nós, Senhor!”.

O padre, um europeu dono de um português lastimável, não hesitou. “Há duas luzes estranhas sobre nossas cabeças”, anunciou solenemente no alto-falante da Matriz. Prontamente um grupo de senhoras assustadas se reuniu no templo para rezar o terço. Agora a população inteira estava na rua observando o fenômeno.

Amedrontadas, as crianças se agarravam às mães. Os homens se armaram com foices e garruchas. “Estejamos preparados para o que der e vier”, diziam uns aos outros procurando não demonstrar o temor que sentiam.  

No boteco, um sujeito trouxe à tona a reportagem televisiva recentemente veiculada sobre a autópsia de um extraterrestre.
- É evidente que estão aqui por causa disso. Talvez não tenham gostado da matéria: revelou a existência deles. 
- Ficou louco, foi? E por acaso eles têm televisão lá? – acudiu o outro.
- É claro que sim, e com parabólica e tudo. Se eles têm naves espaciais, por que não teriam uma tecnologia tão obsoleta? Um silêncio momentâneo inundou o estabelecimento.

A polícia foi acionada. “Vou consultar o meu superior: nunca vi um caso assim”. A situação permaneceu inalterada por algumas horas. Vencidas pelo cansaço, pouco a pouco as pessoas foram se retirando. “Vamos aguardar o amanhecer. Se essas luzes ainda estiveram aí, a gente vê o que faz”.

Na madrugada, dois adolescentes caminhavam despreocupadamente pelas ruas já silenciadas. Chegavam de um baile promovido na cidade vizinha.  
- Já tinha visto um canhão de luz?
- Não, muito menos dois. Que tecnologia, não? Garanto que dava pra ver os círculos daqui.
- Será? O bagulho não deve ser tão forte assim. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Lições Pirajuenses*


*Artigo publicado na edição 1150 do Jornal Observador

          Os pirajuenses mostraram que o povo unido é capaz de exercer pressão sobre o poder público. E nem poderia ser diferente: ocupantes de cargos eletivos devem governar e legislar segundo os anseios do povo.

Não é democrático o distanciamento entre população e seus representantes. O uso do termo “autoridade”, inclusive, acaba servindo convenientemente ao propósito desagregador. O indivíduo investido em cargo público é o cidadão propriamente dito alocado nas esferas de poder.

Outra lição vem das redes sociais. Já tínhamos acompanhado a importância desses dispositivos na primeira eleição de Barack Obama e na Primavera Árabe. No entanto, o caso pirajuense trouxe à tona um exemplo local de sua capacidade aglutinadora e catalisadora.   

Registre-se ainda a saudável contribuição entre redes sociais e mídia tradicional. É o caso da publicação neste semanário da “Carta Aberta aos Vereadores de Piraju” de autoria do meu velho amigo e companheiro de estrada Felippe Aníbal.

O texto – que tão perfeitamente sintetizou a indignação pirajuense – surgiu no Facebook e logo chegou à plataforma impressa graças à sensibilidade da equipe do Observador. (Sim, “Peruca”, sua carta cumpriu um papel histórico embora você teime em dizer que foi apenas um desabafo).
           
Apesar das contribuições, o que definitivamente determinou a vitória foi a exemplar mobilização popular. O histórico de lutas em defesa do Paranapanema adquiriu mais robustez e lastro.
           
Se o poder público tende a ser suscetível ao poder econômico, a população provou que não o é. A vigília, no entanto, é eterna.   

domingo, 25 de novembro de 2012

Carta a Belchior*


*Crônica publicada na edição 1148 do Jornal Observador

Caro Belchior. Eu sei que o momento é inoportuno. Todos nós, fãs e admiradores de sua obra, estamos estarrecidos com o enfoque sensacionalista da reportagem veiculada pelo “Fantástico” e com o tom de perseguição deflagrado por ela.

Evidentemente, espanta-nos o fato de citarem o seu nome em função de questões de foro privado quando a sua obra é sabidamente uma das mais importantes da Música Popular Brasileira.

Embora eu não tenha a intenção de defendê-lo (você não precisa disso), me atrevo a refrescar a memória dos desavisados. Quem não conhece – só mencionando as mais batidas – “Como Nossos Pais”, hino de uma geração imortalizada por Elis Regina ou nunca se pegou cantarolando “Medo de Avião” ou “Apenas um Rapaz Latino Americano”?

Bastaria mencionar registros antológicos como “Velha Roupa Colorida” (também gravada por Elis, assim como “Mucuripe”, parceria sua com Fagner), “A Palo Seco”, “Tudo Outra Vez”, “Comentário a Respeito de John”, “Hora do Almoço” e tantas outras canções que integram o hall das mais importantes da história da MPB. Ou ainda a leitura social e crítica de São Paulo revelada em “Fotografia 3X4”, contraponto à visão romântica e poética da “Sampa” de Caetano Veloso.

Bastaria citar discos como “Era Uma Vez Um Homem e Seu Tempo” (1979), ao lado de “Alucinação” (1976) um dos mais importantes de sua carreira, caracterizado pela inovação estética e artística num momento em que a MPB começava a dar sinais de desgaste.

Exemplos da grandeza de sua obra não faltam; falta-me espaço para esmiuçá-la. Caro Belchior: embora seja compreensível a proposta de traduzir sua obra para o espanhol, nós, brasileiros que o temos como patrimônio nacional, gostaríamos de vê-lo nos palcos em breve, mesmo sabendo que você jamais será colocado ao lado de Gil e Caetano.  

Fato que, na atual conjuntura, é mais que um elogio: é um alívio para seus fãs e um salvo-conduto para sua inestimável obra. 




sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Santa chuva*


* Crônica publicada na edição 1140 do Jornal Observador. 

Cabelos longos, vestido comprido. Descalça, ela corre pelas calçadas, dança ao relento, faz movimentos singelos com os braços, rodopia no ar, sorriso sugestivo no rosto. Continua linda: o tempo parece não ter passado para ela.

A cidade se rende ao seu charme, fica à mercê do seu feitiço, absorve o perfume exalado de seu corpo que fica no ar. Mas ela não se deixa levar pelos clamores e segue pelos becos e vielas despretensiosa, pronta para acalentar corpos desavisados.

Por onde passa causa reação. Óbvio, ela continua provocante. Anda com as coxas grossas à mostra e se joga no colo de qualquer um. Seu retorno é sempre motivo de discórdia entre casais. É compreensível: uma concorrente desse porte deixa qualquer mulher com o cabelo em pé. 

Talvez seja seu espírito libertário o que mais incomoda, o desrespeito que ela nutre pelas instituições, o descaso com as convenções sociais, o chegar fora de hora ou o fingir que irá cumprir o horário determinado pelos homens. Nem santa, nem diabólica: simplesmente ela. 

Eu disfarço em público, mas juro que não fico incomodado. Nem quando ela bate na minha janela na madrugada ou vem com a mania tonta de botar as mãos por baixo da minha camisa enquanto me abraça.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Um violeiro toca*

*Crônica publicada na edição nº 1125 do Jornal Observador. Foto by Flávio Mantovani 

Noite fria de junho. No pequeno palco, violas formam um semicírculo ao redor do homem que é o dono da noite. De chapéu, calça jeans surrada e botina de lida, o hábil instrumentista prova que está plenamente conectado à cultura pantaneira tão presente em sua obra. É amparado por músicos competentes, cada um em seu respectivo banquinho, reforçando ainda mais a atmosfera intimista da apresentação.

É a segunda vez que vou a um show de Almir Sater. A primeira foi no ano passado num clube em Santa Cruz do Rio Pardo.  Já o de Cerqueira César é aberto ao público.

Mesmo com tanta gente, a apresentação não perde o clima banquinho e violão, aliás, viola. A parafernália técnica distribuída no palco se resume ao essencial e não há o menor risco de topar com idiotices do tipo “só vocês” ou “joga a mão pra cima e vai”. O intelecto agradece. É que quando a música está em primeiro plano, meu caro, subterfúgios são dispensáveis.  

E que música. Almir Sater funde suas referências regionais ao rock, ao blues, ao folk, arrematando o caldo sonoro com doses vigorosas de virtuosismo.

Embora sua poesia seja igualmente esplendorosa, o violeiro costuma dizer que a melodia, por si só, é algo sagrado. Por isso executa tantos números instrumentais, o que pode chatear quem estava lá só para ouvir os sucessos.

Se como admirador já foi um prato cheio, imagine para um aspirante a músico como eu. Para aproveitar ao máximo a ocasião, coloquei em prática a ousadia de jornalista e acompanhei a apresentação de cima do palco.

Foi um belo batismo para a minha nova Nikon, que debutava na ocasião. 


terça-feira, 15 de maio de 2012

Epitáfio*


Crônica publicada na edição 1120 do Jornal Observador

“Era domingo. Ele apareceu cedo, disse que precisávamos conversar. Mesmo um pouco apreensiva, deixe-o entrar. Ele nunca tinha sido excessivamente violento, exceto em discussões mais acaloradas. Acho que só levei dois ou três tapas durante nosso relacionamento.

Ignorei a orientação do juiz. O que ele poderia fazer? O filho estava dormindo, ele não seria louco de tentar algo. Sentou-se no sofá, calmo como nunca, não implorava o meu perdão e nem tentou me beijar à força. Fiquei um pouco esperançosa, ele parecia conformado. Seria o fim das perseguições e das ligações fora de hora?

Argumentou que estava preocupado: a professora lhe havia dito que o filho parecia confuso sem o pai por perto. Discordei: o menino estava superando o trauma da separação de acordo com a psicóloga. Além disso, ele poderia vê-lo sempre, não seria uma criança sem pai.

Ele retomou o mesmo argumento. Discordei de novo. Eu era a mãe, eu conhecia o atual estado do meu filho, ele não sabia o que estava falando. Olhava profundamente em meus olhos enquanto eu falava (talvez estivesse se despedindo). Calou-se, derrotado em sua proposta de arranjar justificativa para me procurar. Joguei isso na cara dele, eu estava cansada: sempre uma desculpinha para se aproximar.

E parecia resignado quando me atacou subitamente. Foi tudo muito rápido: rolamos no carpete. Ele batia minha cabeça contra o chão enquanto me chamava de vagabunda.

Percebi que, se pudesse, ele teria me batido mais. Queria me subjugar, mostrar que era o dono da situação. Mas, por medo de acordar o filho, ele cumpriu logo seu propósito. Três tiros à queima roupa. Em juízo, alegou crime passional, subterfúgio conveniente para os assassinos.

O covarde fugiu quando ouviu o menino gritar no corredor. Covarde, deixou que o meu filho me visse naquela situação: morta, estirada no carpete da sala.”

*Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil vítima de violência doméstica segundo o Mapa da Violência de 2010. Fonte: IG.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Viola*

*Crônica publicada na edição 1107 do Jornal Observador

Chegou e se acomodou no meu peito. Mas não foi assim do dia pra noite não. Foi se aproximando bem devagar, sorrateiramente, como quem não quer nada.

Rodeou, hesitou, afastou-se. Aproximou-se de novo e sumiu do mapa. Ficou uma temporada assim, sabe-se lá onde.

Deu as caras de novo tempos depois, quando eu já morava em Bauru. Ironicamente, foi na cidade grande (?) que ela bateu forte, como se quisesse suprir aquela saudade da terra natal, a vontade de pescar ou participar de uma rodada de boia no velho Pardo.

Lá, em plena vida urbana, a viola revelou o sertão que vive dentro de mim. Compreendi definitivamente o que Guimarães Rosa já havia sussurrado no meu ouvido: sou do interior, mas também sou cidadão do mundo.

Engana-se o leitor ao achar que ela veio simplória e desafinada. Apresentou-se assim à primeira vista, porém trouxe elementos que eu desconhecia.

Provou que não era um instrumento defasado como crê o senso comum. Provou que tinha “leitura”, sensibilidade e mais familiaridade com Bach e Beatles que muito pretenso conhecedor de música. Limitação, portanto, é propriedade do tocador, não do instrumento.

Viola é uma entidade, tem vida própria. Fascina roqueiros, bluseiros e jazzistas. A guitarra é um instrumento de força, porém sua imagem está colada à figura do músico (a cena em que Hendrix ateia fogo à sua Fender, por exemplo, é bem ilustrativa). Já a viola é autossuficiente. Quem é o violeiro? Não importa.

Tem uma incrível e singular capacidade de fascinar o caipira e o diplomata, o médico e o pedreiro. Chega a tocar o coração de quem, inclusive, é indiferente à música. Quando ela toca o mundo pára – mesmo que por apenas um segundo; seu ponteio fisga a alma.

Mesmo com essa capacidade, a viola sempre foi modesta e sua presença nunca tentou reprimir meu amor primeiro, a guitarra. Prova cabal de que é segura de si e não vê o diferente como ameaça e sim como algo que pode acrescentar mais sabor e cor à existência.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Paixão*

* Crônica publicada na edição 1104 do Jornal Observador

Foi amor à primeira vista. Desde pequeno, eu corria ao seu encontro toda vez que tinha uma chance. Ela me abraçava com fervor, me envolvia completamente em seus braços, atravessava a camiseta e escorria as mãos pelas minhas costas. Não tinha pudor: se eu permitisse, ela tocaria todo o meu corpo.

Meus pais não aprovavam aquele comportamento, ralhavam comigo quando eu chegava naquela situação, ofegante, embebido naquela voluptuosidade. Aquela entrega rotineira poderia me prejudicar, diziam, comprometeria meu futuro.

Ela era minha, mas também era de todos. Eu a via desfilar pela cidade: não menosprezava ninguém, bastava estar aberto às suas carícias. Bêbados ao relento, senhoras, crianças, moças, homens casados, todos eram dignos de seu amor incondicional.

Não tinha hora para aparecer e nunca respeitou convenções sociais. Para alguns, ela representava a mais pura alegria; para outros significava perdas, choro e ranger de dentes.

A maturidade fez com que eu ficasse mais prudente. Encontrávamos-nos no quintal de casa e não mais na rua, à vista de todos, para evitar comentários maliciosos.

Às vezes, quando eu a ignorava, ela batia na minha janela, ameaçava entrar, mas permanecia do lado de fora, sem qualquer ressentimento. Eu ainda a amava, mas já não era um brinquedo seu como no passado. Eu tinha me transformado num adulto, com todas as limitações que isso implica.

Todavia, ainda fico pensativo quando ela some. Continuo debruçado na janela, olhando o horizonte, à sua espera. Deve estar por aí, mundo afora, abraçando outros homens, tocando outros corpos, revelando a outras bocas o seu beijo molhado.

E mesmo que eu não me entregue a ela com a mesma intensidade dos velhos tempos, sua presença ainda é indispensável para trazer à alma um pouco de alívio e paz.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Diário*

* Crônica publicada na edição 1100 do Jornal Observador

A noite foi terrível. Como sempre, ele me deixou sozinha num canto e foi falar com não sei quem. Fiquei plantada quase uma hora, igual uma idiota. Os outros convidados pareciam rir de mim: o que essa moça faz ali imóvel todo esse tempo?

Cheguei a pegar uma latinha de cerveja só para disfarçar o mal estar. Logo eu, que não bebo absolutamente nada. Mas acho que o olhar tenso denunciava meu desconforto. Obviamente, fiquei o resto da noite emburrada. Ele não gostou, ficava perguntando o que tinha acontecido. Acusou-me de estragar tudo toda vez que saíamos.

Para piorar, o meu ex-namorado apareceu na confraternização e ele passou a me infernizar ainda mais, insinuando que eu provocara o outro. Que culpa tinha eu se o cara passou perto da gente por acaso? Eu nem sabia que aquele imbecil trabalhava na mesma empresa; aliás, eu sequer tinha notado a presença dele. Mesmo assim, me pegou pelo braço com tanta força que pensei até que ele fosse me agredir.

Como homem é idiota, inverte prioridades. Atribui um peso àquilo que não representa absolutamente nada, enquanto parece não se importar com aquilo que realmente deveria estar atento.

Reagi: prometi deixá-lo. Ele chacoalhou os ombros. Parecia estar seguro de que eu voltaria atrás, como nas outras vezes. Só que hoje, pobre homem, vai ser diferente.

E quando ele aparecer com aquela cara deslavada pedindo para voltarmos, vou dizer calmamente “não”. Ele fará juramentos, vai prometer mundos e fundos. Vou reiterar, muito segura: “não”. Ele então vai recorrer ao plano B, noivado e casamento. Inútil. Vai perguntar, desesperadamente, como é que as coisas mudaram assim do dia para a noite só por causa de uma briguinha. Em vão. O último estágio é implorar aos meus pés, aos prantos, depois de pedir o apoio dos meus pais para a sua causa perdida.

Só então ele vai entender que a pior coisa para um homem é a brutal indiferença feminina em relação ao passado, capacidade que só a mulher domina plenamente.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O Saci, um estudo*

*Crônica publicada na edição 1095 do Jornal Observador

Compreender a complexidade desse espécime 100% brasileiro não é uma proposta recente.

Em 1918, o escritor Monteiro Lobato publicou o livro “O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito”, que traz sua pesquisa acerca do tema. Embora a publicação tenha se tornado literatura básica para estudiosos, é na tradição oral que comumente são encontrados os relatos de avistamentos mais significativos.

Todavia, com o avanço da ciência, já é possível traçar as principais características do Saci, que segundo os “saciólgos” esteve à beira da extinção no início dos anos 90.

Segundo um estudo da Associação Nacional Dos Criadores De Saci (ANCS), entidade sem fins lucrativos sediada em Botucatu responsável pelo repovoamento do espécime, o Saci é um mamífero pertencente à ordem dos primatas geralmente encontrado no interior de São Paulo e Minas Gerais.

É um animal arredio e não se deixa fotografar. Vive predominantemente nas florestas mas durante a noite vagueia pelos arredores de vilarejos e pequenas cidades. Por ser bastante curioso, é comum ele mexer em roupas e ferramentas à vista, assim como fazer tranças na crina dos equinos.

Segundo os saciólogos, ter apenas uma perna foi a maneira que a natureza encontrou para garantir maior mobilidade ao Saci, que costuma permanecer oculto no interior dos bambuzais durante o dia.

Os estudiosos apontam ainda que a criatura representa a miscigenação racial tão presente na formação do Brasil, e o fato de o Saci dispor de apenas um membro inferior simboliza a violência dos brancos imposta aos africanos durante a escravidão.

Embora exemplares fossem encontrados com facilidade em meados do século passado, a espécie quase entrou em extinção devido a proliferação de abóboras transgênicas cultivadas exclusivamente com fins comerciais (quando ingerida, a fruta causa intoxicação e morte em sacis). Felizmente a realidade mudou e hoje há inúmeros institutos e órgãos empenhados em salvar o bicho.

Justamente com o objetivo de garantir a perpetuação do ser mítico, a ANCS iniciou um bonito projeto nos arredores de Botucatu que inclui, além do trabalho de reinserção através da reprodução em cativeiro, visitação turística a pontos onde há maior probabilidade de avistamentos. A iniciativa acabou contribuindo diretamente para a preservação da mata nativa, já que o Saci necessita de florestas para se desenvolver plenamente.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Compêndio sobre a existência*

*Crônica publicada na edição 1085 do Jornal Observador

Fixada sobre uma estrutura estranha está a Vida. De longe sua base parece firme, sedimentada em concreto armado, construída para durar infinitamente. Mas de perto é outra história: é sustentada apenas por vigas muito finas.

Sua temporalidade é determinada pela capacidade que essa estrutura frágil tem de suportar as peripécias e as adversidades. Às vezes as vigas entortam de tal forma que o rompimento parece iminente, inevitável. E então vem a surpresa: a Vida prospera novamente, emerge dos cacos da tragédia.

Mas nem sempre é assim. Há casos em que a Vida é pega de surpresa e nem tem tempo de reagir. É o Acaso, que trama contra tudo e contra todos. Ele está presente na ligação incômoda no meio da noite, no automóvel que avança a faixa enquanto o pedestre a atravessa, no diagnóstico inesperado, no olhar do filho que não será abraçado de novo.

Há aquele que pretende evitá-lo. Recorre a uma redoma e passa a viver fechado, protegido do mundo externo por uma bolha de plástico. Doce ilusão. O Acaso está em todo lugar e ninguém está imune. Um dia a bolha explode.

Quando não explode, o recluso percebe algo estarrecedor: perdera o trem da Vida enquanto tentava evitar o desconhecido, o novo, o adverso. Percebe que foi um mero espectador e não um protagonista de sua própria existência. Agora é tarde demais, a Vida dá seu último sopro. É o Acaso de novo surpreendendo até mesmo no leito de morte.

Os que têm um pouco de sorte ainda têm tempo para aprender uma última lição: Vida e Acaso são parte da mesma matéria e andam de mãos dadas. Fugir de ambos é fugir da própria existência.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Operação Lua Cheia*


* Crônica publicada na edição 1084 do Jornal Observador

O texto abaixo é verídico e foi escrito nos anos 60 pelo cientista paulistano Milton Octavio Ramirez, integrante do Núcleo de Estudos Paranormais da Universidade de São Paulo (USP).

Com o objetivo de estudar o mito do lobisomem, o estudioso percorreu o interior de São Paulo coletando relatos de moradores e indícios sobre a aparição da criatura. Era a chamada “Operação Lua Cheia”, projeto que os militares tentaram boicotar e ocultar da população durante a ditadura.

O resultado da pesquisa foi mantido em sigilo até recentemente embora o mundo acadêmico já tivesse conhecimento dela há décadas. A íntegra do documento está disponível na biblioteca da USP.

“Pode-se afirmar que lobisomem é europeu. Ele chegou com os primeiros imigrantes italianos. É neste grupo social e em seus descendentes que os relatos são mais facilmente encontrados.

Popularmente o surgimento do lobisomem está relacionado ao mito da maldição do sétimo filho. Essa tese, porém, não tem respaldo científico. A hipótese mais plausível, obtida por meio de análise laboratorial em vestígios deixados pela criatura, sugere a existência de uma anomalia genética que, em função de determinados estímulos externos, deflagra imediatas transformações físicas no corpo de seu portador.

Todavia, autópsia realizada em animais domésticos supostamente vitimados pela entidade descartou atividade humana mesmo em eventual estado alterado. Os padrões das perfurações encontradas nos cadáveres são incompatíveis com qualquer objeto humano existente na região.

As aparições estão geograficamente localizadas no interior do estado, predominantemente na zona rural. A cultura popular afirma que o mítico ser aparece em noite de lua cheia mas essa especificidade não é necessariamente verdadeira. Ocorre que a claridade da referida fase lunar facilita um eventual avistamento da criatura.

Aspectos físicos. Comumente atribui-se ao lobisomem uma morfologia híbrida, localizada entre homem e lobo. No entanto é difícil mensurar qual aspecto prevalece. Há relatos em que a figura aparece como um cão enorme. Outras testemunhas apontam que a entidade tem o aspecto quase humano, diferenciando-se apenas em função da presença de presas e garras descomunais.

O lobisomem utiliza um modo peculiar de locomoção para um quadrúpede. Ele introduz as mãos fechadas na boca, acomodando-as na região interna da maça do rosto, e utiliza os cotovelos como patas dianteiras. Desse modo a criatura fica curvada, ou seja, cabeça e tórax mais próximos do solo em relação ao quadril, diferentemente do alinhamento dos quadrúpedes comuns. Mesmo nessa postura aparentemente desconfortável ele é capaz de atingir cerca de 40 quilômetros por hora, haja vista as perseguições noturnas descritas por cavaleiros da região.

Moradores do distrito de Domélia, zona rural de Agudos, apontam que o ser ronda as casas da localidade com frequência. O último avistamento teria ocorrido há menos de uma semana. A moradora Isabel Aparecida do Prado Reis revelou que o marido foi obrigado a tapar as pequenas aberturas da residência de madeira por causa do temor que a criatura causa nas crianças. “Elas podiam vê-lo através das frestas”, afirma.

A moradora revelou outro dado interessante: a aparição mais consistente ocorrera exatamente na noite do nascimento de seu sétimo filho.”

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Jovem Demais Para Morrer*

* Crônica publicada na edição 1082 do Jornal Observador

Depois de permanecer por alguns minutos sentada à beira da cama, meio cambaleante, ela já não é mais capaz de sustentar o próprio corpo. Desaba, por sorte, sobre o leito. Nada de visual extravagante: veste jeans e camiseta branca como usualmente faz quando está em casa.

Impossível pegar no sono. Um violento tremor toma conta de seus braços e pernas. Seu cérebro gira. O teto, as cortinas, a mobília, o quarto todo está rodando. Seu corpo franzino, que por muitas vezes suportou os excessos, finalmente chegou ao limite. Não há ninguém ao seu lado. Ironicamente a estrela está só.

O colapso se instala. A respiração fica cada vez mais difícil. Ela arqueja desesperadamente em busca de oxigênio. É inútil: está sufocando. Os olhos esbugalhados suplicam por socorro. Mesmo ébria, ela tem medo. Teme por saber que provavelmente não verá a luz do dia de novo. Teme por estar sozinha. Teme por sentir que está sendo sugada por um redemoinho que acabara de surgir debaixo da cama. Ela não pode vê-lo, não tem forças para mirá-lo, mas sente que ele está ali, ruidoso. Tenta gritar mas só consegue emitir um gemido grave e abafado, o último movimento que seu corpo irá protagonizar conscientemente.

Uma pressão repentina no tórax elimina o resto de consciência que lhe sobrara. Os tremores se acentuam, estão mais intensos e ininterruptos. Seus olhos agora estão horrorosamente virados, os músculos do pescoço empurram a cabeça violentamente contra o travesseiro, a face descomposta. Em sua agonia, ela emite um ruído que não parece humano.

Finalmente a crise cessa. Resta apenas um corpo afundado na cama, imóvel. Seus lábios revelam um roxo vivo. Ao redor da boca há um líquido espumoso e resíduos sólidos expelidos por causa da violência dos espasmos.

Em poucos segundos o segurança vai entrar e, em desespero, ligar para a emergência. Tarde demais.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Ares Potosinos*

*Crônica publicada na edição 1077 do Jornal Observador

Um pouco antes do almoço, enquanto caminhávamos pelas ruas de Sucre pela última vez, fui acometido por uma pequena indisposição, algo semelhante ao estado gripal. Abri mão da refeição e investi num capuccino na esperança de que a cafeína me fizesse suportar as três horas de ônibus que teríamos que enfrentar até Potosí.

A indisposição aumentou vertiginosamente no início da noite depois de uma caminhada pela aladeirada cidade, considerada uma das mais altas do mundo. Potosí está situada a cerca de 3.900 metros do nível do mar (só a título de comparação, Piraju está a 650 metros) e à primeira vista não guarda qualquer resquício do ciclo da prata vivenciado no século XVI, exceto pela existência de casarões e ruelas estreitas típicas da arquitetura colonial. Está localizada aos pés de Cerro Rico, a mais importante mina do período hoje aberta à visitação.

Embora eu estivesse piorando a cada minuto, demorei a crer que meu lastimável estado fosse resultado do soroche, o mal da altitude. Na verdade chegamos a pensar que se tratava de mais um mito em relação à Bolívia assim como os boatos em relação ao Trem da Morte.

Amanheci ainda pior. Zé Renato, Felippe, o canadense e os franceses que dividiam o quarto conosco também passaram por maus bocados durante a noite, embora não na intensidade experimentada por mim. Os sintomas do soroche são dor de cabeça, diarreia e febre, porém tendem a desaparecer depois de 24 horas de sofrimento graças à adaptação natural do corpo à altitude. Naturalmente, a conjuntura desfavorável nos obrigou a adiar a partida para Uyuni, nosso próximo destino.

Mesmo devidamente diagnosticado pelo proprietário da pensão, uma questão ainda martelava minha cabeça: Santa Cruz de la Sierra vivia um surto de dengue quando passamos por ela dias antes. Então, ligando os pontos e observando que eu carregava todos os sintomas veiculados pelas campanhas brasileiras de prevenção, considerei seriamente estar com dengue.

Estava claro que havia uma confusão no diagnóstico em função da semelhança dos sintomas e concluí que poderia ser tarde demais quando a verdade viesse à tona. Seria uma chatice imensa morrer em Potosí e ser enterrado ali porém eu já me preparava psicologicamente para esse fim à medida que minha situação piorava. Apesar do apoio psicológico e logístico de Felippe e Zé Renato, eu estava decido a voltar para Sucre e tomar um avião até o Brasil caso conseguisse levantar a cabeça do travesseiro no dia seguinte (o simples ato de erguer um copo de água era uma tarefa extremamente dificultosa naquelas circunstâncias).

Mas, graças ao mate de coca, fui me recompondo aos poucos conforme havia previsto o dono da espelunca. (Nota aos ignorantes: a coca não é droga. Ela é utilizada nos Andes há milênios pois ajuda a suportar o ar rarefeito e combate diversos males. Além da função medicinal, os mineiros mastigam as folhas da planta com o intuito de amenizar a fome durante as extenuantes jornadas de trabalho que podem chegar a 16 horas. A coca tem ainda função religiosa e mística: é utilizada em rituais e os agricultores distribuem suas folhas no campo como oferenda à Pachamama – a Mãe Natureza – antes do plantio).

Acordei na manhã seguinte quase preparado para correr a Maratona Internacional de São Paulo. No entanto, como o ônibus para Uyuni só sairia depois do meio-dia, restou-nos arcar com o atraso de um dia no cronograma da viagem – o que nos custou uma diária extra – e a possibilidade de curtir um pouco mais os ares daquela cidade maravilhosa.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Caminhos*

*Crônica publicada na edição 1076 do Jornal Observador

A possibilidade de subirmos a pé até Machu Picchu me deixou preocupadíssimo. Enfrentar um desconhecido caminho montanhoso sob o frio da madrugada talvez não fosse uma ideia muito inteligente. Além disso, poderíamos ficar à mercê de ladrões e criminosos.

Mas, conforme o esperado, meus argumentos não convenceram e fui voto vencido na assembleia realizada durante o jantar em Águas Calientes, cidade situada a oito quilômetros da histórica cidade dos incas. Zé Renato, Felippe e Albino optaram pelo óbvio: ir até Machu Picchu caminhando seria muito mais simbólico. Eu também achava isso, só não queria chegar lá cansado e não perder a chance de apreciar o local. Albino, um professor aposentado de 62 anos natural de Viçosa, Minas Gerais, havia sido integrado ao grupo em La Paz.

Se a decisão da maioria contribuiu de maneira significativa para que aquela refeição não fosse das mais proveitosas, o aspecto do prato principal também não colaborou muito: o cuy assado, espécie de porquinho da índia considerado uma iguaria no Peru, é servido inteiro, inclusive com as patinhas retorcidas pelo fogo.

Partimos às 4h20 da manhã e ao contrário das minhas previsões encontramos poucos turistas no trajeto, o que traria certa segurança caso ficássemos perdidos. Mas nem foi necessário: o caminho até o cume é muito bem sinalizado e de fácil visualização mesmo na penumbra. Também não havia perigo de assalto, apenas desfiladeiros e escadarias infinitas no meio da mata que supostamente eram atalhos.

De súbito, Machu Picchu emerge depois de um pequeno caminho cercado por vegetação nativa. A visão é impactante e, óbvio, emociona. Depois de quase vinte dias de estrada, estar na cidade perdida dos incas representou o encerramento de um ciclo. O lugar é carregado de mística não apenas por simbolizar a opulência cultural daquele povo, mas também por ter passado incólume pela colonização espanhola (Machu Picchu só foi descoberta há cem anos). Representa, portanto, a resistência contra a imposição cultural do colonizador, sentimento ainda presente entre os nativos todavia sem conotação xenofóbica.

Pude constatar isso através da exposição de nosso guia turístico. Ele contestou a historiografia oficial que atribui ao pesquisador estadunidense Hiram Bringman o descobrimento de Machu Picchu. De acordo com o guia, um historiador peruano teria sido o primeiro acadêmico a chegar ali embora a população da região já soubesse da existência da localidade há séculos. Ocorre que Bringman teria ficado com a fama após coagir um nativo a levá-lo até as ruínas escondidas entre a vegetação.

Até hoje o Peru luta para reaver peças e artefatos usurpados pelos estadunidenses naquele período.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Segregados no Deserto*

*Crônica publicada na edição 1075 do Jornal Observador

Os israelenses têm um costume interessante: logo após o serviço militar – obrigatório para ambos os sexos – os jovens recém saídos das forças armadas viajam o mundo. O objetivo é conhecer outras culturas e ampliar os horizontes antes do ingresso na universidade. Isso parece explicar a enorme presença de turistas israelenses na América Latina. No entanto, contato com outras culturas pode não significar necessariamente interação conforme pudemos observar “in loco” nos três dias de passeio pelo deserto boliviano.

Estamos na região de Uyuni, que além da belíssima planície de sal congrega ainda paisagens áridas, picos nevados, vulcões inativos e lagoas coloridas. Nossa comitiva, a bordo de veículos 4X4, é composta pelo grupo de Israel (cerca de 12 pessoas), nós três, uma inglesa e um neozelandês.

Já na primeira noite ficamos à margem do grupo majoritário. Assim como eu, Felippe e Zé Renato, os israelenses também viajavam juntos, então nada mais natural que permanecessem juntos (Nota: apesar do distanciamento eles foram cordiais conosco nos poucos momentos em que trocamos palavras).

Sob o frio noturno do deserto, num alojamento em que a eletricidade era cortada depois das 10 horas da noite, deparamos-nos à mesa do jantar com a inglesa e o neozelandês, ambos igualmente deslocados em relação à maioria. Iniciava ali – à base de sopa e vinho – nosso grupinho ocasional, apesar de alguns tropeços no quesito língua.

Novas interações surgiriam na noite seguinte, no remoto e desértico povoado de San Cristobal. Eu terminava a refeição quando três turistas sorridentes ocuparam a mesa ao lado. Curiosamente os recém chegados também não pertenciam à faixa etária dos colegas de Israel, situada em torno de 21 anos. Como havia um cabeludo entre eles perguntei sobre um violão. Nada. Sem qualquer outra coisa mais interessante a fazer, fui dormir.

Horas depois ao acender a luz do quarto quando eu já estava em avançado estado de sonolência, Felippe explicou que eram uruguaios e profundos conhecedores da história do continente. Zé Renato e ele haviam proseado com os hermanos até a madrugada, interação que incluiu tópicos como imperialismo estadunidense, perspectivas políticas da América Latina no século 21 e música popular brasileira. Enquanto eu ouvia o relato fui apresentado a Alejandro, o cabeludo que vivera em Ubatuba por seis meses e que passara em nosso quarto para dar um olá antes de se recolher definitivamente. Na manhã seguinte os uruguaios continuariam a expedição (a rota deles era a mesma que a nossa, porém em sentido inverso).

Aquele episódio teria sido apenas uma passagem agradável fadada ao esquecimento caso não tivéssemos encontrado os uruguaios por acaso em La Paz, dias depois. Começava ali uma forte identificação que aprofundaria a simbologia implícita naquela viagem.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

No Trem da Morte*

*Crônica publicada na edição 1074 do Jornal Observador

Tomávamos um café em Corumbá quando soubemos da morte de Bin Laden. A informação veio por meio de uma piada que envolvia o nome do homem mais procurado do mundo que nos foi contada pelo dono do estabelecimento. Entreolhamos-nos, espantados. O proprietário percebeu.
- Então não sabem que o líder da Al Qaeda foi morto? – perguntou, embora nem precisasse. Era apenas o segundo dia de viagem e já iniciávamos a trajetória rumo a uma dimensão paralela, na qual permaneceríamos alheios ao “mundo real” por um bom tempo.

Corumbá é passagem obrigatória para quem pretende enfrentar o famoso Trem da Morte, que vai até Santa Cruz de La Sierra. Toma-se o comboio em Porto Quijaro, a primeira cidade boliviana depois da fronteira com o Mato Grosso do Sul. Embora estejam em países diferentes, Corumbá e Porto Quijaro parecem pertencer ao mesmo território: o fluxo de turistas é intenso.

Na fronteira demos com a cara na porta: o departamento de imigração boliviano estava fechado. O motivo: a transferência do feriado do Dia do Trabalho para segunda-feira, o que nos forçou a voltar ao Brasil e pernoitar em Corumbá. Carimbados os passaportes no dia seguinte, tomamos um táxi até a bilheteria. Ao contrário das informações colhidas na internet, não fomos importunados por cambistas (os relatos apontavam que os negociantes informais praticam terrorismo psicológico, coagindo o turista a comprar bilhetes sob a justificativa de que não haveria outros assentos disponíveis).

O fatídico Trem da Morte – supostamente reduto de traficantes e bandidos em fuga – é tão perigoso quanto uma maternidade durante a madrugada. Das 11 da manhã até as seis da tarde nosso vagão transportou quatro pessoas: eu, Felippe Aníbal, Zé Renato – ambos companheiros de mochila – e uma senhora bonachona que afirmou ser contrária ao governo de Evo Morales. Os passageiros só começariam a surgir bem longe, na medida em que o trem ia adentrando o interior do país.

Nos vilarejos crianças e adultos disputam a atenção dos viajantes na tentativa de vender água, suco, marmitas e iguarias como chirimoya, uma fruta que até agora não conseguimos identificar. A entonação característica dos vendedores soa como um mantra e chega a ser divertido apreciar aquela confusão oral que se instala a cada parada.

Morte no trem só se for de tédio: o comboio demora mais de 19 horas para superar meros 600 quilômetros. Entretanto o contato com a cultura nativa ameniza esse pequeno detalhe, assim como a vista do pantanal boliviano. À noite a graça é apreciar o céu estrelado. Passei boa parte da noite entoando mentalmente “Trem do Pantanal”, canção que cita a cidade para qual nos dirigíamos e o Cruzeiro do Sul, assim como o famoso meio de transporte.

Chegamos em Santa Cruz de La Sierra, por volta das seis e meia da manhã, com a mesma impressão: a Bolívia é um lugar propício para a quebra de mitos, tabus e estereótipos. Só quando saímos da rodoviária com destino a Sucre descobrimos algo estarrecedor: viajar de ônibus é que pode ser uma tarefa arriscada.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Quase no Topo do Mundo*

* Crônica publicada na edição 1073 do Jornal Observador

Os setenta metros restantes até o cume parecem intransponíveis. Apoiado numa rocha, tomo a pulsação: a veia jugular está a ponto de explodir; respirar é uma tarefa extenuante. Zé Renato, Felippe, os outros brasileiros que integram a excursão, o casal inglês e o guia já estão no topo. Estou só, martirizado pelo vento cortante e pela neve que começa a umedecer minhas pernas.

Em Chacaltaya, pico com 5430 metros de altitude localizado na Cordilheira dos Andes e distante 30 quilômetros de La Paz, é possível chegar de carro a 5300 metros. Mas não é tão simples assim: a estradinha de terra é íngreme, sinuosa e, como tudo na Bolívia, à beira de precipícios. Em alguns pontos, o veículo fica a menos de meio metro do abismo. Emocionante, para não dizer assustador.

Depois de quase dez minutos, retomo o caminho. Além das consequências do ar rarefeito sobre meu corpo, tenho que administrar outra variante: o medo de altura. Nos últimos trinta metros, totalmente cobertos de neve, o caminho se afunila e há desfiladeiros em ambos os lados. Arqueado, com as mãos próximas do solo para o caso de alguma emergência, sigo devagar até o cume.

O clima é de contemplação: todos estão extasiados com a vista. Ao redor, há picos que se sobrepõem às nuvens e a neve nas encostas cria uma textura agradável aos olhos. Também é possível avistar o Titicaca, o lago mais alto do mundo. Poderíamos ficar ali por horas, sem dar uma palavra sequer, apenas degustando aquela paisagem indescritível.

O contexto faz com que eu reflita sobre os últimos acontecimentos. Estamos no 13º dia de viagem. Já passamos por Santa Cruz de La Sierra, Sucre, Potosí e Salar de Uyuni. Vivenciamos experiências inigualáveis e conhecemos paisagens deslumbrantes. Porém a dinâmica da estrada não cria a conjuntura adequada para o processamento de informações e estímulos. Era necessário parar e Chacaltaya propiciou o momento adequado para isso. Pena que por pouco tempo: meia hora depois o guia informou que era hora de partir.

Depois da sessão de fotos, iniciamos a descida. Uma pequena hesitação no trecho mais perigoso do trajeto e já estamos caminhando normalmente até o ponto de apoio.

O problema agora será enfrentar de novo a estradinha tosca até La Paz. E o pior: morro abaixo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Odisseia II*

*Crônica publicada na edição 1066 do Jornal Observador.

São 15h30 e estamos na fila que dá acesso ao estádio debaixo de um sol impiedoso. Will faz uma análise sociológica da situação.
- É tranquilo, Peruca. Todo mundo aqui pagou caro pelo ingresso e o pessoal só quer curtir o som dos caras. Por isso não tem tumulto algum: ninguém vai se meter a besta e estragar a noite. Aqui todos torcem pelo mesmo time – avalia.

O argumento do nosso amigo mineiro me pareceu bastante convincente. Desencano.

A fila anda devagar. Enquanto isso observo as “figuras” que vão a esse tipo de evento. É obvio que não seria muito diferente disso – todos nós vestimos camisas de banda de rock – mas tem cabeludo com jaqueta de couro e coturno mesmo com a temperatura batendo a casa dos 34 graus. Mas a excentricidade fica restrita ao plano da vestimenta: nada de desordens, drogas ou qualquer tipo de violência, diferentemente do que julgam os (muitos) ignorantes e tapados desse Brasil varonil.

O policial é implacável na hora da revista pessoal. Confiscou o meu desodorante rolon novinho. O Zé Willian teve mais prejuízo: tomaram a colônia que ele trazia na bolsa. O Alex ficou sem a chave de abrir pcs. Tudo teve que ser jogado num latão, para a alegria dos catadores de plantão. Um sujeito na fila me dirige a palavra.
- Rolon agora virou arma? – questiona com ironia.
- Para um governo fascista como esse que domina nosso estado parece que sim – respondo. Ele retribui com um sorriso largo. O policial ignorou a crítica; deve ter pensado que se tratava de um elogio.

16 horas. Alex, Zé Willian, Will, Roberta, João e eu nos posicionamos a uns 10 metros da grade. Ótimo local. O problema é que não podemos dar sopa por aí e perder lugar: última saída para banheiro e aquisição de água e sanduíche para não morrer de inanição até o final da maratona.

19 horas. Boa nova: o Cavalera Conspiracy abre o show do Maiden. Bem interessante, para não dizer engraçado, ver Max e Igor Cavalera fazendo cover deles mesmos. Obviamente são as músicas do Sepultura que mais levantam a galera. Previsivelmente eles fecham com Roots Bloody Roots: a plateia vibra. O show revigora o ânimo de todos nós, já esgotados fisicamente.

Surpreendentemente, as luzes se apagam novamente às 21 horas em ponto. Não pode ser: a apresentação está prevista para ter início às 21h30. Os telões são ligados: um vídeo de introdução traz a concepção do novo álbum. São eles. Indescritível a emoção. Agradeço por estar vivo e ter a chance de presenciar aquele momento histórico.

Com a mesma pontualidade do início, o Iron Maiden deixa o palco exatamente às 23 horas. Com a alma lavada, é hora de dar adeus aos nossos amigos mineiros e pegar o metrô mais próximo. Cansaço físico e memórias recentes se alternam como assuntos predominantes em nossas conversas.

1 hora da manhã. Estamos de volta ao terminal Barra Funda mais de 24 horas depois. Acontece que o nosso ônibus só sai às 7h30 da manhã. Não temos outra escolha a não ser tirar um cochilo ali mesmo no chão do terminal, um dos lugares mais insalubres do mundo (tirando o plenário do STF). Mas, pela terceira vez, sou acordado pelo guardinha: “Moço, não pode dormir aqui”. Do outro lado um mendigo dorme em paz há mais de três horas.

Estamos de volta ao interior.
- Zé, apesar de toda a canseira e correria, valeu a pena, bicho. Faria tudo de novo – comento ao saltarmos do ônibus.
- Verdade, Peruca? Então vamos articular nossa ida ao show do Ozzy na semana quem vez? – pergunta, sério.
Finjo não ouvir o que ele diz.