quarta-feira, 19 de maio de 2010

O capoeira*

*Crônica publicada na edição 1021 do Jornal Observador

Mancomunados, os três – um civil, um policial local e um policial da capital que visitava sua cidade natal – chegaram ao bar. Fizeram um sinal ao dono do estabelecimento e apontaram discretamente para a vítima: um negrinho franzino que tomava sua cota de pinga num canto inabitado do boteco, longe da badalação do ambiente.

Retirante que se fixara na região para trabalhar na colheita de algodão, o negrinho não imaginava que era o escolhido do dia para dar vazão à monotonia dominical daquela cidade do interior quando assuntou a aproximação dos três desconhecidos e, junto com eles, os olhares sarcásticos dos demais frequentadores do local, ávidos por uma boa briga, coisa que há muito tempo não ocorria por ali.

Mas, ao contrário do esperado, o negrinho não reagiu à voz de prisão, minando de uma vez por todas qualquer expectativa de tumulto generalizado. Xeque-mate: os arrumadores de confusão eram colocados à prova pela primeira vez. Com a batata quente na mão, o policial titular se viu na obrigação de prender de verdade o desconhecido na medida em que os botequeiros de plantão vaiavam a atuação frustrada da comitiva e retornavam ao balcão, zombando da autoridade local.

Restava então passar uma descompostura no negrinho para lhe ensinar a não folgar na cidade dos outros e, principalmente, a não desmoralizar autoridades perante os seus subordinados.

Já na delegacia, sentado numa cadeira no meio da cela e algemado com as mãos para trás, o negrinho reverteu o jogo – de novo – ao se safar de um “copinho” aplicado pelas costas. Lançando o corpo no ar, conseguiu trazer as mãos algemadas para frente do corpo depois de encolher as pernas o suficiente para alcançar tal êxito.

E então o pau comeu, e não havia lugar naquele cubículo que estivesse imune dos pés velozes do negrinho. Atônito, o civil que sabiamente havia permanecido fora da cela assistia à cena perplexo: uma sucessão de golpes e voadoras que sequer permitia que os militares recuperassem o fôlego ou permanecessem em pé. A tragédia só não foi maior porque o policial titular tinha deixado o revólver sobre uma mesa também do lado de fora da cela, juntamente com o espectador privilegiado.

No dia seguinte, um decreto informal foi baixado por um sujeito fardado e com três costelas quebradas: a brincadeira nos botecos estava suspensa por tempo indeterminado.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

No ouvido de José*

*Crônica publicada na edição 1027 do Jornal Observador

Indignado, um estudante pede a palavra.
- Com todo o respeito que tenho pelos mais velhos, quem delegou ao senhor o direito de criticar gratuitamente a Igreja e a religião? O senhor não tem outra atividade mais produtiva para desenvolver a não ser viajar pelo mundo criticando aquilo que não lhe diz respeito?

Parte da plateia demonstra pronta indignação diante da indelicadeza do participante. Sem exteriorizar qualquer hesitação, o senhor – José Saramago – acena com as mãos para que o público se acalme, como se sugerisse a todos que não precisaria de defesa ou complacência de quem quer que fosse.

Aplacados os ânimos, Saramago retoma o microfone ainda com mais calma do que antes.
- Mesmo que me tivessem delegado algo, uma coisa é certa: esse direito não seria originário do grupo ao qual você provavelmente pertence. Se assim fosse, eu estaria a andar pelo mundo utilizando a religião para justificar atrocidades.

O burburinho imediato na plateia indicava que o inimigo perdera a batalha. Saramago, mais uma vez, buscou anular qualquer hostilidade que pudesse ser dirigida contra o estudante e deu continuidade ao debate.

Finda a apresentação, tomou um voo e em poucas horas já estava em casa. Jantou com a esposa e, após organizar por algum tempo uma pilha de manuscritos, sentou-se à cama.

Enquanto tirava os sapatos com certa dificuldade, observara que Pilar já dormia. O Senhor então lhe observou:
- Foste reto e coerente mais uma vez, José. Tens galgado a passos largos os degraus da Sabedoria.
- Obrigado senhor, os anos de vida têm me trazido benesses ao Espírito.

E, aproximando-se, Deus confidenciou-lhe algo nos ouvidos. Saramago ficou pensativo por alguns minutos e pensou em acordar a mulher para anunciar o tema de seu próximo romance. Porém Pilar parecia imersa num sono tão profundo que ele resolveu esperar o dia seguinte. “Haverá muito tempo amanhã”, avaliou.

E adormeceu enquanto rezava mentalmente um padre-nosso.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Despedida

Camila reconduz para trás da orelha a franja que grudara em sua boca por causa do caminhar apressado que sacolejava o seu corpo. Tem ainda em mente o ruído recente oriundo do fechar brusco de uma porta.

Não olha para trás. O único resquício com o já passado está em imaginar, mais por curiosidade do que por maldade, como sua partida repentina será assimilada. Ao mesmo tempo, se questiona se está agindo de maneira correta, se não seria melhor acabar tudo formalmente, civilizadamente como fazem os casais normais. Acontece que provavelmente iria suceder o mesmo das outras crises: ele iria se esvair em lágrimas, prometer mudar e lhe dar mais atenção, além de propor um jantar romântico num restaurante qualquer para demonstrar sua disposição em se regenerar. Ela, mais uma vez, iria aceitar embora já soubesse que nada daquilo era verdade e que o armistício não chegaria ao próximo final de semana.

De qualquer forma, o mais provável é que ele nem vá notar a casa vazia. Continuaria indiferente, como sempre fora, à sua existência. Talvez só desse falta lá pelas 20 horas, horário em que ela normalmente chegava da academia. Ainda assim permaneceria um bom tempo entretido em planilhas armazenadas no notebook ou então concentrado nas séries policiais daquele canal a cabo e só ligaria depois das 10 da noite, preocupado se ela se metera em algum acidente que pudesse ter causado algum dano ao carro.

Como ele havia mudado nesses poucos anos de convivência sob o mesmo teto. Transformara-se num troglodita, impaciente enquanto ela se vestia e neurótico nas crises idiotas de ciúmes em festas ou barzinhos, enquanto ela era obrigada a tolerar o seu olhar devorador em cima de qualquer mulher que passasse por perto.

Como se permitiu chegar a essa situação? Deveria ter reparado na índole dele ainda durante o namoro. E rememorava as inúmeras vezes em que ele ligava no sábado à tarde para avisar que iria pegá-la para um passeio. Ela se arrumava, se perfumava, preparava o cabelo, escolhia uma roupa legal e se prostrava à sua espera. Mas o passeio – quase sempre – tinha o único intuito de encaminhá-la para “ajudar” na organização do churrasco da família ou dos amigos futeboleiros dele. Ainda assim, ela frequentemente levava a fama de vagabunda da matriarca da casa, que reportava publicamente ao filho a ineficiência e a má vontade da futura nora.

Como fora tola tantas vezes. Deveria ter botado sal no prato da velha a fim de causar-lhe um infarto fulminante. Mas, principalmente, não deveria ter resistido aos flertes descarados daquele amigo dele sempre presente nesses eventos. Deveria tê-lo beijado (mesmo sem vontade) na frente de todos e assim causar uma hecatombe no seio daquela família.

Pensou melhor. Não gostaria de ter qualquer atitude que se assemelhasse à índole dele.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Céu


Numa fração de segundo, os três requeridos estavam sentados em cadeiras localizadas numa pequena sala cuja alvura das paredes chegava a incomodar a vista.
- A última coisa que eu ouvi foi um barulho ensurdecedor. Não vi corredor algum e muito menos luz no fim do túnel como me disseram a vida toda, dizia a senhora beata enquanto voltava o corpo para trás na tentativa de buscar a expressão de seu interlocutor.
- Eu cochilava no momento do ocorrido e senti apenas uma pressão forte sobre meu peito. De resto não senti absolutamente nada, enfatizou o político de carreira.

A senhora baixou o tom de voz e colocou o congressista a par do mais recente caso de traição conjugal na paróquia, que por sua vez flexionou o tronco à frente para ouvir a narração do episódio com mais clareza.

Alheio a tudo, o poeta ateu rabiscava qualquer coisa num canto da parede quando foi repreendido por um senhor de barba branca que acabara de entrar na saleta sem qualquer aviso.
- Ei rapaz, tira já esse lápis sujo e terreno daí. Será que você não sabe que pisa num local santo?
- E vocês dois parem de comentar sobre a vida alheia. Vocês já têm problemas demais pra resolver, disse com cara de poucas amizades. Disfarçadamente, a velha girou o dedo no ar horizontalmente para indicar ao homem que continuaria a história num momento mais oportuno.

O senhor de barba branca sacou do bolso um enorme e surrado livro com capa negra e colocou-o sobre uma mesa baixa.
- Vocês vão se levantar sem tumulto e assinar esse livro que formaliza o Auto de Morte de cada um de vocês. Só assim poderei dar prosseguimento ao processo.

Antes de qualquer reação dos demais ocupantes da saleta, a beata deu um pulo da cadeira portando um sorriso largo no rosto.
- Quando entramos no Reino dos Céus?, perguntou já debruçada sobre o livro.
- Minha senhora, estamos apenas iniciando o processo como acabei de explicar. Não há qualquer previsão, apontou o senhor de barba branca.

A velha protestou de imediato. Disse que aquilo era um absurdo, que por toda sua vida havia se dedicado à Igreja, que doara parte dos bens à paróquia depois da morte do marido e que, inclusive, havia sido catequista por longos anos.
- Portanto, eu exijo prioridade sobre estes dois, gritou. Conheço as leis divinas e estou apta para ingressar – agora – na Casa do Senhor.

O senhor de barba branca coçava e cabeça e olhava para o chão enquanto ouvia a reclamação.
- Minha senhora, conhecer a lei divina não significa nada aqui. Aliás, será até pior para a senhora. Quantas vezes a senhora levantou falso testemunho contra casais? E por quantas vezes julgou que fulano ou cicrano era indigno de frequentar a missa?

A velha fez uma cara de espanto e calou-se. Nessa altura o político de carreira já demonstrava preocupação com a direção que a conversa havia tomado. O poeta ateu permanecia sentado, indiferente a tudo.
- Mas e as obras de caridade e as boas ações que realizamos ao longo da vida? Eu, por exemplo, doei milhares de cestas básicas durante os anos em que atuei na vida pública, questionou o político de carreira.

O senhor de barba branca bateu a mão repetidas vezes no ombro do congressista.
- Meu amigo, alguém deveria ter lhe dito que obra de caridade deve ser feita no foro intimo e não se utilizando do Estado como você fez. Desse jeito qualquer um faz, não é mesmo?

O político de carreira também se calou. O senhor de barba branca prosseguiu.
- Vocês dois fizeram o bem por interesse e isso é pior que qualquer pecado. Ficaram cegos diante das interpretações humanas sobre Deus e jamais questionaram certas ações que são claramente incompatíveis com a Lei Santa.

O político de carreira e a velha beata tomaram consciência da gravidade da situação.
- E a tramitação na justiça divina não costuma ser muito rápida. Esse é um dos poucos pontos em que Céu e Terra são parecidos.

O poeta acabara de ser repreendido novamente por escrever algo na parede.
- Vejamos esse homem, disse o senhor de barba branca apontando para o poeta ateu. Ele é um sujeito sem fé, nunca acreditou em Deus mas fez o bem pelo bem sem esperar redenção divina já que não acredita nela mesmo. E por isso mesmo – e paradoxalmente – está em situação melhor que a de vocês.

O poeta ateu percebeu que falavam sobre ele e resolveu entrar na roda.
- Escutem todos: não estou nem um pouco preocupado com essa história de salvação. Ô Pedroca, se eu for passar a eternidade por aqui pelo menos me arranje um caderninho e uma caneta.

Então o senhor de barba branca foi até a mesa, puxou uma gaveta e apertou um botão vermelho que abriu um alçapão sob os pés do poeta ateu, conduzindo-o definitivamente para o Reino dos Céus.

O senhor de barba branca se dirigiu novamente à senhora beata e ao político de carreira, que a essa altura já portavam desespero em suas faces.
- Não costumamos receber escritores por aqui. Eles geralmente são responsáveis por motins que tiram a tranquilidade da Casa do Pai. Porém, diante da monotonia da eternidade, eles são mais úteis do que religiosos fervorosos ou políticos demagógicos.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Conversa com Humanos

Os dois malucos colaram quando eu e o Willian improvisávamos sobre a harmonia de Sultans of Swing. Sentaram no chão da praça bem em frente ao banco integralmente ocupado só por nós dois por causa da anatomia dos violões e permaneceram em silêncio.

Já havia uma galera no esquema de sempre: um grupinho aqui, outro acolá e vinho comunitário na madrugada que se iniciava. Afora os dois “estranhos” recém chegados, o pessoal era quase o mesmo.

De canto de olho, botei reparo nos adolescentes ainda durante a execução da canção. Sujeira, pensei, se rolasse uma batida policial ali rodaria todo mundo. Estabelecidos no chão, era óbvio que não sairiam dali tão cedo. Seria inútil então levar o instrumental adiante na tentativa de dispersar quem quer que fosse.

- Podemos curtir um som com vocês?, perguntou um deles.
- Lógico, veio a resposta titubeante do banco.

Um dos adolescentes, já em avançado estágio etílico, puxou uma conversa comigo. Falou que já não frequentava o grupo de jovens há um bom tempo. Disse ainda que não ia mais à missa porque já estava cheio de ser filmado pelos “cidadãos de bem” toda vez que botava o pé na porta da igreja.
- O senhor veio para todos, respondi. Todos são dignos dele, independentemente dos nossos problemas, expus na tentativa de pelo menos amenizar aquela angústia dirigida espontaneamente a mim.

Agora era a outra voz que se voltava.
– Você se lembra daquela vez em nos encontramos em Santa Cruz do Rio Pardo? Eu nem imaginava que você iria me cumprimentar, afinal a gente nunca tinha trocado ideia. Sangue bom você.

Era um vínculo que se formara à revelia devido a um encontro casual ocorrido na rodoviária da cidade em 2006, coisa que eu já nem me lembrava mais. Imediatamente, fiquei com a consciência pesada por ter (pré) julgado os caras. A passagem também me deu subsídios para perceber que tratar a todos como humanos é imprescindível, principalmente aqueles classificados como a escória da sociedade. Grande lição aprendida da maneira mais despretensiosa possível.

Esse mesmo jovem reproduz um som com a boca e pede que eu tente executar o resultado no violão.
- Dá pra tocar aí sim, a gente fazia isso na Febem, afirma. Imediatamente o Willian, que é o que tem mais trânsito livre e familiaridade com os meninos, assume a missão diante da minha dificuldade de encontrar a batida.

Eles entoam em uníssono “Homem na Estrada”, épico dos Racionais que narra a trajetória de um sujeito que tenta retomar a vida depois de passar pelo crime. Não erram uma vírgula sequer da letra quilométrica. Ocorre o mesmo com mais duas ou três canções de rap, todas denunciando basicamente a opressão estatal sobre os oprimidos e a má distribuição de renda reinante no país.

O momento é mágico, jamais imaginaria celebrar com pessoas como aquelas. Já não me preocupo mais com o que vão dizer caso eu seja visto ali naquela hora da madrugada.
- Vocês são sociedade, mas é legal estarem aqui, um deles diz.
- Não senhor, somos todos oprimidos, retifico.

A bebida acaba. Não há mais bares abertos. Os dois jovens saem com uma condição: que permaneçamos ali até que eles voltem com mais bebida.

A cantoria ganha ainda mais fôlego. Só por volta das 4 horas o esgotamento físico é latente. É hora de dispersar, mas antes um convite inusitado.
- Cara, vocês vão tocar no meu aniversário, nem que eu tenha que pagar.
- Meu, não existe esse negócio de pagar, a gente toca pra curtir, diz o Willian.
- É só avisar o dia, arremato.

Os dois cortam a praça a pé e pegam a reta da quebrada. Nós também pegamos o nosso rumo, cientes de que a noite já rendera algo que dinheiro nenhum seria capaz de comprar.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A Babel é aqui

Em qualquer um dos pontos turísticos de Manaus, pelo menos dois corpos transam escancaradamente à luz do dia: a língua inglesa e a língua portuguesa. As línguas francesa, alemã, italiana e espanhola também participam da orgia, embora com menor incidência.

É assim em feiras, camelôs, prédios históricos e ruas. Após a visita ao Palácio Provincial, eu e o Binho paramos num café situado no térreo. Era a chance de rebater a friagem após levarmos uma chuvarada sem tamanho nas costas. Na mesa ao lado, um homem de meia idade e uma mulher beirando os 30 anos conversavam em francês enquanto olhavam uma espécie de catálogo. Acho que eram pesquisadores. Já na visita ao Bosque da Ciência, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), foi um casal australianos que nos fez companhia durante a visita aos jacarés.

Se a variedade de línguas por metro quadrado for considerada um item importante numa eventual competição, Manaus poderia ser eleita a capital mais cosmopolita do país, deixando pra trás cidades historicamente cosmopolitas como São Paulo e Rio.


Peixe vai bem, obrigado

O calor é sufocante mesmo com tempo nublado, sempre é bom lembrar. Mesmo assim, o Carlinhos não arreda o pé da churrasqueira: está preparando um tambaqui assado que vai ao fogo com escamas, prática que – graças ao conhecimento indígena – não permite que o alimento torre.

O tambaqui não é o primeiro da lista. Já passamos pelo matrinchã sem espinhos, tucunaré frito, pirarucu assado, caldo de piranha e por aí vai. Por ser mais leve que carne vermelha, o peixe é rapidamente digerido pelo organismo e não te deixa com aquela sensação de “estomago pesado” após as refeições, o que é um importante item de sobrevivência principalmente numa quentura daquela.

É sábado e a cerveja gelada é a única bebida que parece amenizar o calor. Até eu me arrisco a bebericar meio copo dela de hora em hora. É que vinho – por conta de suas características – não desce nem trincando de gelado por causa do clima.

Continua...(ou não)

sábado, 2 de janeiro de 2010

O culpado é o Milton


Fui a Manaus por influência de Milton Hatoum. Há algum tempo eu acompanho semanalmente as crônicas do escritor publicadas no Estadão. Em muitas delas, ele expõe suas reminiscências ligadas à mítica capital do Amazonas, o que aos poucos foi me levantando uma curiosidade surpreendente.

No início do ano encontrei um amigo de longa data numa lanchonete. Conversamos um pouco e ele me informara que prestaria serviço militar em São Gabriel da Cachoeira, que fica a mais ou menos 18 horas de Manaus via barco. Disse ainda pra eu aparecer quando quisesse. Eu disse que iria no final do ano. Mas a conjuntura mudou e ele foi deslocado para outra região.

Lá pelo mês de julho apareceu um outro amigo. Em determinado momento, Manaus entrou espontaneamente na pauta.
- Ei, eu tenho um tio lá e já estou até convidado para ir visitá-lo.

Estava feito o rolo. Hatoum, te mando a conta depois.

Civilização hidráulica

Pretendia refutar o clichê “onde tradição e modernidade se encontram” para descrevê-la mas foi impossível. Manaus é, ao mesmo tempo, um de pólo tecnológico e uma região onde a vida é regida pelo curso das águas. Seis meses na cheia, seis meses na vazante. Os ribeirinhos situados às margens do Rio Negro – que banha a capital – moram em palafitas aparentemente exageradas quando a água está em seu nível mais baixo. Dali para o interior todo o transporte é feito via barco, de passageiros a mercadorias. Tem linha para Parintins, São Gabriel da Cachoeira, Humaitá e dezenas de outras localidades. Para abastecer as milhares de embarcações existentes, há postos de combustível que bóiam no meio do rio, aceitam cartão de crédito e tudo. O cais flutuante evita que a vida pare durante a oscilação das águas.

Já na zona urbana há trânsito caótico, engarrafamentos e buzinadas nervosas a cada segundo. Parece São Paulo. Não existe metrô e o transporte coletivo não é lá “uma maravilha”, palavras dos próprios nativos.

O distrito industrial abriga filial de qualquer marca que se possa imaginar. Pensou em Samsung, tem lá. Pensou em Sony, tem lá. Pensou no diabo a quatro, você vê lá. Durante o passeio por ali me pus a pensar no motivo pelo qual tais empresas estão instaladas numa cidade que é separada do restante do país pela floresta, cujo acesso não é nada fácil principalmente se pensarmos em termos rodoviários. Era um surto bairrista que me atingia naquele momento, refutado logo em seguida ao passarmos pela empresa que produz os cds que nós ouvimos.

Encontro das águas regado à caipirinha de cupuaçu

Encostado no balcão do bar instalado na embarcação, observo a vastidão do Negro. Do meio do rio, é possível avistar centenas de contêineres na região do distrito industrial. Na margem oposta, a floresta se aproxima.

A moça finalmente traz o meu pedido: caipirinha de cupuaçu. Passeio mais um pouco pelo barco a observar o horizonte e colo no bar novamente para experimentar outra iguaria: a exótica caipirinha de taperebá. Minha percepção já está um pouco alterada nessa altura.

O grupo de turistas é variado: há portugueses, australianos, indianos e estadunidenses, além de brasileiros de todas as partes do país. Tinha também um cara da Guatemala com calça jeans preta e chapéu de caubói mesmo naquele calor insuportável.

Puxo conversa com um indiano que vestia uma camiseta do Flamengo (Lá só dá time carioca). A visão limitada do visitante nos leva a priorizar o belíssimo assunto futebol. Mas não é culpa dele, o próprio Brasil trabalha no sentido de reforçar esse estereótipo. Menos mal, a coisa também poderia ter desandado para outros temas incríveis como carnaval, Olimpíadas ou Copa do Mundo.

Felizmente o barco aporta. Já era hora, pois o meu (combalido) inglês estava em vias de não dar conta de levar adiante um assunto que não tenho domínio nem mesmo na minha própria língua. Chegava o momento da caminhada na mata e da visita aos ribeirinhos.

Onde o filho chora e a mãe não vê

São três horas da matina. Manaus ainda vive a ressaca da vitória do Flamengo obtida na noite anterior. Enquanto isso Binho, Carlinhos e eu preparamos a tralha de pesca. O destino é a represa de Balbina, que começa em Presidente Figueiredo ou a cerca de 170 quilômetros da capital.

A estrada – ladeada pela mata – é a mesma que leva a Caracas, capital da Venezuela. Essa é apenas a segunda vez que o carro do Carlinhos pega uma longa distância, afinal não há muitas rodovias. Conforme adentramos a floresta vai se mostrando ainda mais exuberante, reservando paisagens belíssimas mesmo às margens da rodovia.

Seis horas da manhã e já estamos numa comunidade ribeirinha distante 40 quilômetros de Presidente Figueiredo. O acesso se dá unicamente por estrada de terra e o vilarejo não deve ter mais de mil pessoas. Barcos surrados com o logotipo da prefeitura trazem alunos vindos do fundão do Amazonas.

Contratamos o serviço de um nativo para nos levar rio acima numa “voadeira”, barco de madeira tocado por um motor de pouca potência chamado rabeta. Apesar da vastidão, o rio está baixo e há tocos e galhos salientes por todos os lados. O nativo dirige a pequena embarcação por uma tortuosa estrada imaginária. Sabe exatamente por onde deve seguir para não esbarrar em algum obstáculo, mesmo diante de um cenário que parece se repetir trecho a trecho. Pelo caminho cruzamos com dezenas de outras voadeiras que levam nativos para todos os lados. Aqui a floresta amazônica reina absoluta. Não há eletricidade ou sinais de civilização, apenas comunidades de ribeirinhos espalhados em pequenas e abundantes ilhotas. É possivelmente o único lugar do mundo onde pessoas com baixo poder aquisitivo podem se dar ao luxo de ter uma ilha particular.

O nosso piloteiro vacila e batemos num tronco submerso. A pancada seria capaz de jogar alguém na água, o que felizmente não ocorre. Mas a passagem serviu para dar mais emoção ao passeio, sem falar na emoção de ver o barquinho “fazendo água” enquanto o piloteiro tenta amenizar o problema com a ajuda de um pequeno recipiente de plástico.

Finalmente chegamos ao nosso destino: a pousada na mata que seria o ponto de partida para a pescaria de tucunaré.

Pão com banana e caldo de peixe no café da manhã

Chove abundantemente em Manaus. Não há raios ou nuvens carregadíssimas como as que normalmente vemos em dias instáveis, apenas um céu uniformemente acinzentado. E chuva que Deus manda.

Eu e o Binho tentamos nos proteger sob os toldos das lojas situadas no largo da Praça do Relógio. São 8 horas da manhã. O comércio ainda está sonolento e a chuvarada parece esfriar ainda mais os ânimos dos vendedores.

Sem qualquer outra opção viável, me vem a ideia de dar continuidade ao passeio gastronômico e experimentar um legítimo café da manhã manauara. Adentro a espelunca e passo a vista no menu colado à parede. Mas o meu relógio biológico parece não gostar do que vê: pão com banana talvez não mate a fome e caldo de peixe àquela hora da manhã com certeza não seria bem recebido pelo meu estômago.

Opto pelo tradicional pão de queijo acompanhado por um suco de laranja com açúcar e gelo. Sem graça, porém a opção mais segura para quem quer continuar o passeio pelo alagado centro histórico de Manaus sem ser surpreendido por uma suspeita movimentação intestinal.

Continua (talvez)...