segunda-feira, 4 de abril de 2011
Odisseia*
Terminal Barra Funda. Sábado, 26 de março, 5h45 da manhã.
- Zé Willian: tem um negócio que você precisa conhecer – digo com empolgação ao descermos do ônibus.
Trata-se de um banheiro gratuito localizado no outro lado da rodoviária que só descobri durante minha última passagem pelo local.
- O banheiro ao lado da área de desembarque é, na verdade, uma armadilha para caipiras desatentos – continuo. – Você nunca mais vai precisar gastar R$ 1,50 toda vez que chegar apurado ao terminal. Rimos, embora eu esteja falando sério.
Depois de alguns pães de queijo e um copo de leite para recompor as energias, tomamos o metrô até a Praça da República. O objetivo: encontrar o Alex, que já estava em São Paulo à nossa espera. A missão: chegar ao Morumbi para ver o Iron Maiden ao vivo e a cores.
São 6h30 da matina e não há nenhuma movimentação. Parado demais para uma cidade que nunca dorme. O jeito é dar um rolê pelo centro histórico para matar o tempo: Teatro Municipal, Viaduto do Chá, Vale do Anhangabaú, Largo São Bento, Santa Ifigênia (a grafia está correta), cruzamento da Ipiranga com a São João (não sei o que o Caetano viu ali).
Mais tarde, já em horário comercial, encontramos o Alex na Galeria do Rock e aproveitamos o momento para vasculhar o famoso point, cenário de batalhas violentas entre punks e metaleiros na década de 80. É surreal visitar lojas antológicas que alimentaram os apreciadores de boa música numa época em que discos clássicos eram escassos e a importação era cara e difícil. Cabeludos com camisa do Maiden dominam o ambiente. As lojas também aproveitam a oportunidade para faturar com a venda de todo tipo de produto relacionado à banda.
11 horas. O estomago começa a roncar. É hora de achar o caminho até o Morumbi. Mas antes uma fotografia na fachada do prédio que oportunamente ostenta uma imensa faixa vertical que dá boas vindas ao Iron Maiden.
No ônibus, uma surpresa agradável: trombamos três mineirinhos feras. João, sua namorada Roberta e Will, todos de Poço Fundo, sul de Minas. Os três também saíram de casa por volta da meia-noite e vão enfrentar uma odisseia até a apresentação de uma das maiores bandas de metal ainda em atividade. A identificação é imediata. Apenas uma coisa nos diferencia: a experiência. Eles já viram AC/DC e foram a outros shows do Iron. Uma ótima notícia para três caipiras amantes de heavy metal que nunca foram a um grande concerto de rock.
Saltamos no cruzamento da Francisco Matarazzo com a João Saad (acho que é isso). Daqui para frente o trajeto será feito a pé. Antes, pausa para uma celebração milenar: matar a fome em grupo no fast-food que vende esfirra a preço de banana.
12h30. Retiramos os ingressos na bilheteria sob um sol escaldante. A movimentação ao redor do estádio é intensa: há trânsito, cabeludos, vendedores ambulantes e policiais militares por toda a parte. O calor é insuportável, haja garrafinha de água. Acomodamos-nos à sombra de uma árvore para jogar conversa fora e matar o tempo. O celular do Zé Willian toca “The Wicker Man” para amenizar a fadiga e preparar a alma.
É melhor assim: os portões serão abertos às 15 horas e o show deve ter início às 21h30. O dia será longo. A noite também. (Continua na próxima edição).
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
O Duelo*

*Crônica publicada na edição 1059 do Jornal Observador
Ainda criança, Crispim deu os primeiros sinais de que gostava de viola. Sua vida era andar pelo vilarejo tocando um pedaço de pau, que não largava nem para comer.
Isso quando comia. Porque Crispim era órfão de pai e mãe e vivia apenas daquilo que lhe era dado pelas senhoras daquela comunidade rural. Os maridos não gostavam: achavam que dar esmola ao pobre coitado faria dele um vagabundo. E, à medida que o menino ia crescendo, a hostilidade dos patriarcas crescia junto.
Chegou à adolescência com um instrumento de verdade, doação de um ferreiro aposentado. Era uma violinha bem ordinária que não segurava a afinação. Mesmo assim, o jovem se dedicava integralmente ao instrumento e chegava a passar dias isolado na mata, num rancho que erguera sozinho à beira do córrego.
Quando a Folia de Reis passava coletando alimentos para a festa do Divino, Crispim acompanhava os tocadores. Nas noites de calor, ele parava em um ponto da calçada onde era possível ouvir rádio. Quando o aparelho de uma residência era desligado, ele vagava pela cidadezinha à procura de outra casa que estivesse com o utensílio em uso. Decorava as melodias que ouvia para reproduzi-las no dia seguinte. Passou a entreter os frequentadores dos bares e a viver das gorjetas dadas por eles. Isso lhe garantiu ainda mais a oposição dos cidadãos de bem.
No final da temporada de chuvas, Crispim sumiu do mapa. No início ninguém deu muita atenção. Mas depois que o violeiro não aparecera nem para acompanhar a Folia de Reis, a população ficou alarmada com o desaparecimento. Uns diziam que ele havia sido morto, outros diziam que ele tinha endoidecido.
Voltou homem feito, com chapéu e sobretudo, bem diferente do jeito maltrapilho do passado. Nada de gorjetas em bares: Crispim agora arrancava dinheiro grosso dos fazendeiros, que admiravam os detalhes prateados de sua nova viola e ensandeciam ao ouvi-lo tocar. As mulheres se apaixonavam por ele. Era o maior violeiro da região.
Fez fortuna em pouco tempo. Agora diziam que ele havia feito pacto com o Demo, que não era possível um sujeito como ele, sem eira nem beira, enriquecer da noite para o dia. Seu jeito misterioso só reforçava essa impressão.
A cisma foi confirmada quando um violeiro desconhecido apareceu na cidade. Igualmente virtuoso e bem afeiçoado, o desconhecido intimou Crispim para um duelo em praça pública.
Sexta-Feira Santa, à meia-noite. Pouca gente teve coragem de assistir à peleja. Mas quem viu conta que Crispim foi derrubando, um a um, os ponteios ameaçadores do adversário, de modo que o estranho chegou ao final do duelo com apenas duas cordas. O golpe de misericórdia veio quando Crispim tocou “Saudade do Matão”, fazendo a pequena plateia chorar. Derrotado, o forasteiro enfiou o que sobrara da viola no saco e deixou o vilarejo.
Há quem garanta que era o próprio Cão, arrependido por ter dado tanto poder ao jovem instrumentista, que viera destruir a reputação de Crispim e tomar-lhe a alma.
Depois desse episódio, não se soube se o Diabo voltou a fazer pacto com violeiros.
Ainda criança, Crispim deu os primeiros sinais de que gostava de viola. Sua vida era andar pelo vilarejo tocando um pedaço de pau, que não largava nem para comer.
Isso quando comia. Porque Crispim era órfão de pai e mãe e vivia apenas daquilo que lhe era dado pelas senhoras daquela comunidade rural. Os maridos não gostavam: achavam que dar esmola ao pobre coitado faria dele um vagabundo. E, à medida que o menino ia crescendo, a hostilidade dos patriarcas crescia junto.
Chegou à adolescência com um instrumento de verdade, doação de um ferreiro aposentado. Era uma violinha bem ordinária que não segurava a afinação. Mesmo assim, o jovem se dedicava integralmente ao instrumento e chegava a passar dias isolado na mata, num rancho que erguera sozinho à beira do córrego.
Quando a Folia de Reis passava coletando alimentos para a festa do Divino, Crispim acompanhava os tocadores. Nas noites de calor, ele parava em um ponto da calçada onde era possível ouvir rádio. Quando o aparelho de uma residência era desligado, ele vagava pela cidadezinha à procura de outra casa que estivesse com o utensílio em uso. Decorava as melodias que ouvia para reproduzi-las no dia seguinte. Passou a entreter os frequentadores dos bares e a viver das gorjetas dadas por eles. Isso lhe garantiu ainda mais a oposição dos cidadãos de bem.
No final da temporada de chuvas, Crispim sumiu do mapa. No início ninguém deu muita atenção. Mas depois que o violeiro não aparecera nem para acompanhar a Folia de Reis, a população ficou alarmada com o desaparecimento. Uns diziam que ele havia sido morto, outros diziam que ele tinha endoidecido.
Voltou homem feito, com chapéu e sobretudo, bem diferente do jeito maltrapilho do passado. Nada de gorjetas em bares: Crispim agora arrancava dinheiro grosso dos fazendeiros, que admiravam os detalhes prateados de sua nova viola e ensandeciam ao ouvi-lo tocar. As mulheres se apaixonavam por ele. Era o maior violeiro da região.
Fez fortuna em pouco tempo. Agora diziam que ele havia feito pacto com o Demo, que não era possível um sujeito como ele, sem eira nem beira, enriquecer da noite para o dia. Seu jeito misterioso só reforçava essa impressão.
A cisma foi confirmada quando um violeiro desconhecido apareceu na cidade. Igualmente virtuoso e bem afeiçoado, o desconhecido intimou Crispim para um duelo em praça pública.
Sexta-Feira Santa, à meia-noite. Pouca gente teve coragem de assistir à peleja. Mas quem viu conta que Crispim foi derrubando, um a um, os ponteios ameaçadores do adversário, de modo que o estranho chegou ao final do duelo com apenas duas cordas. O golpe de misericórdia veio quando Crispim tocou “Saudade do Matão”, fazendo a pequena plateia chorar. Derrotado, o forasteiro enfiou o que sobrara da viola no saco e deixou o vilarejo.
Há quem garanta que era o próprio Cão, arrependido por ter dado tanto poder ao jovem instrumentista, que viera destruir a reputação de Crispim e tomar-lhe a alma.
Depois desse episódio, não se soube se o Diabo voltou a fazer pacto com violeiros.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Uma Imagem*
* Crônica publicada na edição 1057 do Jornal ObservadorAo abrir a caixa de emails me deparo com a instigante informação: “Postei a foto do show no Orkut. Dê uma olhada lá”.
Abro outra janela e ingresso no site. Na página inicial, um recado recente de outro contato questiona algo a respeito de uma viagem em grupo ainda em fase de planejamento. Respondo, postando as parcas informações que obtive até o momento.
Enquanto isso, alguém que não conheço me chama no MSN. “Add vc....tc hj?”. Não entendo o linguajar e, mesmo que tivesse entendido, não poderia responder: “Ow brow ... komo foi o fds?” chama outro contato cuja relação existe apenas no plano virtual, pois ele sequer olha na minha cara quando nos encontramos na rua.
Uma terceira janela se abre no programa de trocas de mensagens instantâneas. Rapidamente, mudo meu status para “Invisível”. Permaneço imóvel na frente do pc, com as mãos suspensas, como se o ruído produzido pelo teclado pudesse denunciar minha fuga.
Segundos depois tento retomar a tarefa original. Mas não é tão fácil assim. Nessa altura, aparece um quarto interlocutor que, não sei como, descobre que estou ali “só na coruja”. É um colega de escola que quer saber como estou. Como se quisesse me provocar, ele só fala por meio de emoticons, aquelas caretinhas animadas. Ridículo, além de incompreensível. Só entendi que ele tem um filho e que mora no Paraná. Ou seria no Amapá? Depois ele me envia um link do grupo de pagode dele e exige que eu comente os vídeos. Ignoro solenemente. – Pode deixar, vejo depois. É que minha internet está bichada hoje – digo, aliás, teclo, sem ficar vermelho.
Foco. Vou tentar alcançar a malfadada foto, já estou impaciente. Será que é alguma imagem do show do Paul em solo brasileiro? O sujeito tinha dito que iria, mas achei que fosse conversa fiada.
Porém caio na besteira de passar antes no Facebook. O meu perfil é recente e ainda não aprendi a mexer direito (Sou um homem analógico, como diria meu amigo Vinicius Quesada). Mesmo assim me divirto fuçando nas ferramentas disponíveis.
Aquele contato incômodo me chama de novo no MSN. Respondo ou não? Será que ele sabe que estou fingindo? Acho que o status “Disponível” no canto superior esquerdo do Orkut me denunciou. Vou ter que usar o velho álibi “Desculpe, é que a net caiu quando eu ia responder” e ainda correr o risco de vê-lo regulando aquele pedal de wah-wah que eu sempre peço emprestado.
Pra evitar outra interrupção ou distração, fecho todas as janelas, inclusive a do Orkut. Esse cara deve ter umas mil fotos no álbum e não seria fácil encontrá-la. A solução é acessar o link que veio no email, o que vai me levar diretamente para a imagem pretendida.
Levo o cursor até lá e click. Azar: é vírus.
Abro outra janela e ingresso no site. Na página inicial, um recado recente de outro contato questiona algo a respeito de uma viagem em grupo ainda em fase de planejamento. Respondo, postando as parcas informações que obtive até o momento.
Enquanto isso, alguém que não conheço me chama no MSN. “Add vc....tc hj?”. Não entendo o linguajar e, mesmo que tivesse entendido, não poderia responder: “Ow brow ... komo foi o fds?” chama outro contato cuja relação existe apenas no plano virtual, pois ele sequer olha na minha cara quando nos encontramos na rua.
Uma terceira janela se abre no programa de trocas de mensagens instantâneas. Rapidamente, mudo meu status para “Invisível”. Permaneço imóvel na frente do pc, com as mãos suspensas, como se o ruído produzido pelo teclado pudesse denunciar minha fuga.
Segundos depois tento retomar a tarefa original. Mas não é tão fácil assim. Nessa altura, aparece um quarto interlocutor que, não sei como, descobre que estou ali “só na coruja”. É um colega de escola que quer saber como estou. Como se quisesse me provocar, ele só fala por meio de emoticons, aquelas caretinhas animadas. Ridículo, além de incompreensível. Só entendi que ele tem um filho e que mora no Paraná. Ou seria no Amapá? Depois ele me envia um link do grupo de pagode dele e exige que eu comente os vídeos. Ignoro solenemente. – Pode deixar, vejo depois. É que minha internet está bichada hoje – digo, aliás, teclo, sem ficar vermelho.
Foco. Vou tentar alcançar a malfadada foto, já estou impaciente. Será que é alguma imagem do show do Paul em solo brasileiro? O sujeito tinha dito que iria, mas achei que fosse conversa fiada.
Porém caio na besteira de passar antes no Facebook. O meu perfil é recente e ainda não aprendi a mexer direito (Sou um homem analógico, como diria meu amigo Vinicius Quesada). Mesmo assim me divirto fuçando nas ferramentas disponíveis.
Aquele contato incômodo me chama de novo no MSN. Respondo ou não? Será que ele sabe que estou fingindo? Acho que o status “Disponível” no canto superior esquerdo do Orkut me denunciou. Vou ter que usar o velho álibi “Desculpe, é que a net caiu quando eu ia responder” e ainda correr o risco de vê-lo regulando aquele pedal de wah-wah que eu sempre peço emprestado.
Pra evitar outra interrupção ou distração, fecho todas as janelas, inclusive a do Orkut. Esse cara deve ter umas mil fotos no álbum e não seria fácil encontrá-la. A solução é acessar o link que veio no email, o que vai me levar diretamente para a imagem pretendida.
Levo o cursor até lá e click. Azar: é vírus.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Em 2011 prometo que...
*Crônica publicada na edição 1053 do Jornal ObservadorEm 2011, prometo que vou cortar os excessos. Uísque só no almoço e após o jantar. Nada de bebida alcoólica no café da manhã. Além disso, vou diminuir o cigarro: três maços ao dia bastam. Deixarei o sedentarismo de lado e praticarei atividades físicas de alto impacto como RPG e Dama. Ingressarei na aula de ioga e frequentarei o culto daquela igreja neopentecostal que abriu numa garagem perto de casa.
É tempo de celebrar a paz, por isso prometo ser uma pessoa mais tolerante em 2011. Não vou mais brigar em bailes sem antes ouvir os argumentos do meu desafeto. Prometo também não lesar tanto o meu sócio no próximo negócio e não pagar propina tão alta àquele político.
Prometo me empenhar no propósito de conhecer melhor o Brasil. Para tanto, vou me debruçar sobre a obra dos verdadeiros mestres da literatura brasileira: Paulo Coelho, Augusto Cury e Zíbia Gasparetto. Quebrarei todos os meus discos do É o Tchan e colocarei no lugar o disco novo do Daniel e toda a discografia do padre Marcelo. Pensando melhor, padre Marcelo é coisa do passado. A moda agora é o padre Fábio de Melo, aquele com pinta de galã que aparece em todo programa de auditório.
É isso mesmo, prometo me esforçar para entender nosso país. Não vou meter o pau no Congresso a torto e a direito sem antes me certificar dos fatos e prometo ainda tentar entender por que o governo, cujo mandatário emergiu do meio sindical, não fez a reforma agrária; por que o governo provisório durou 15 anos e por que um cara do naipe do Sarney ainda é capaz de vencer eleições.
Vou procurar me informar com mais profundidade a respeito das contradições de nossa sociedade. Por que a missa de sétimo dia é rezada no sexto dia? Por que temos que vestir branco no Reveillon? Por que pagamos o seguro obrigatório? Por que Brasília foi construída uns 600 quilômetros pra lá de onde Judas perdeu as botas? Por que acender vela no Finados ou desejar “tudo de bom” no Natal a quem você odiou durante o ano todo?
Prometo ainda tentar entender por que o Tiririca foi eleito, embora nesse caso eu já desconfie da resposta: trata-se da institucionalização da palhaçada na política brasileira. De qualquer forma, vou dar uma passadinha no Google para ter certeza.
Por fim, prometo não fazer promessas para 2011.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Get Back*
* Crônica publicada na edição 1050 do Jornal ObservadorPaul foi acordado por um telefonema suspeitíssimo naquela manhã.
- Macca, estamos voltando esta tarde. Nos encontramos no Abbey.
Ainda sonolento, Paul afastou o telefone do ouvido e olhou assustado para o aparelho enquanto aquela voz familiar continuava a balbuciar alguma coisa do outro lado da linha.
- Que diabos significa isso? - pensou. Enfim retornou o utensílio à orelha depois de alguns segundos mas o seu interlocutor já havia desligado.
Tomado por um misto de estupefação e raiva, Paul não podia crer no que acabara de ouvir. Precipitou-se em retornar a ligação mas recordou que já não tinha o telefone do ex-companheiro de banda desde que John se mudara com Yoko para Nova Iorque.
Imediatamente ligou para a casa de George com o objetivo de checar a história. Em seu íntimo, esperava que tudo não passasse de um trote bem feito. Porém a demora do guitarrista em atendê-lo evidenciou que algo estava errado.
- Você vai compactuar com uma coisa dessas depois de tudo que passamos? - bradou Paul.
- Se eu fui capaz de esquecer nossas magoas pessoais, por que não perdoaria minhas diferenças com John? - disse George enfático, porém na defensiva. Ao ligar para a casa de Ringo, Paul fora informado que o baterista havia saído para um compromisso desconhecido.
A coisa não poderia estar tão fora de controle. Depois de anos de mágoas veladas e distanciamento deliberado, John aparece com uma cacetada dessas.
- Será que esses filhos da mãe ainda precisam de mais dinheiro? - questionou-se na tentativa de encontrar um motivo para tudo que estava vivendo naquela manhã maluca.
Acusado na época de usar o fim da banda para vender discos mesmo diante de seus esforços solitários para evitar o desfecho conhecido por todos, Paul agora era pego de surpresa. Ainda mais em se tratando de John, cujo temperamento difícil foi o principal responsável pelo fim da banda.
Talvez John tivesse o propósito de dar novo fôlego às rusgas antigas ou atingi-lo por outras vias, principalmente agora que sua carreira solo estava consolidada. Pior ainda, Paul acabava de iniciar as gravações de seu novo álbum e a novidade seria uma tentativa de desestabilizá-lo. A provocação era clara: John jamais o chamara de “Macca”. Estava aí um sinal do sarcasmo do velho companheiro de banda.
Paul vestiu o paletó e seguiu para o Abbey Road sem avisar ninguém. Tinha em mente a urgência de evitar que qualquer rumor chegasse à imprensa. Se fosse rápido, talvez convencesse os ex-companheiros a não embarcar em mais uma ideia narcisista e egocêntrica de John. Pensou em passar antes no escritório de seu advogado mas achou que assim levantaria especulações desnecessárias.
Entrou no estúdio pela porta dos fundos para não levantar suspeitas. O prédio estava em silêncio e não havia ninguém no escritório. Caminhou na ponta dos pés para tentar captar qualquer movimentação estranha até se aproximar do estúdio principal.
Pelo vidro da sala de gravação, Paul pôde ver a cabeça balançante de Ringo sentado à bateria. George, como sempre, estava quieto num canto empunhando sua Strato surrada. John, situado bem no meio da sala, tocava sua semi-acústica enquanto cantarolava o refrão de “Don´t Let Me Down”. À sua esquerda, um baixo Hofner acomodado num pedestal aguardava seu instrumentista.
De súbito, McCartney sentiu um toque em seu ombro. Era Linda que o acordava para anunciar que Lennon acabara de ser assassinado em frente ao edifício Dakota.
- Macca, estamos voltando esta tarde. Nos encontramos no Abbey.
Ainda sonolento, Paul afastou o telefone do ouvido e olhou assustado para o aparelho enquanto aquela voz familiar continuava a balbuciar alguma coisa do outro lado da linha.
- Que diabos significa isso? - pensou. Enfim retornou o utensílio à orelha depois de alguns segundos mas o seu interlocutor já havia desligado.
Tomado por um misto de estupefação e raiva, Paul não podia crer no que acabara de ouvir. Precipitou-se em retornar a ligação mas recordou que já não tinha o telefone do ex-companheiro de banda desde que John se mudara com Yoko para Nova Iorque.
Imediatamente ligou para a casa de George com o objetivo de checar a história. Em seu íntimo, esperava que tudo não passasse de um trote bem feito. Porém a demora do guitarrista em atendê-lo evidenciou que algo estava errado.
- Você vai compactuar com uma coisa dessas depois de tudo que passamos? - bradou Paul.
- Se eu fui capaz de esquecer nossas magoas pessoais, por que não perdoaria minhas diferenças com John? - disse George enfático, porém na defensiva. Ao ligar para a casa de Ringo, Paul fora informado que o baterista havia saído para um compromisso desconhecido.
A coisa não poderia estar tão fora de controle. Depois de anos de mágoas veladas e distanciamento deliberado, John aparece com uma cacetada dessas.
- Será que esses filhos da mãe ainda precisam de mais dinheiro? - questionou-se na tentativa de encontrar um motivo para tudo que estava vivendo naquela manhã maluca.
Acusado na época de usar o fim da banda para vender discos mesmo diante de seus esforços solitários para evitar o desfecho conhecido por todos, Paul agora era pego de surpresa. Ainda mais em se tratando de John, cujo temperamento difícil foi o principal responsável pelo fim da banda.
Talvez John tivesse o propósito de dar novo fôlego às rusgas antigas ou atingi-lo por outras vias, principalmente agora que sua carreira solo estava consolidada. Pior ainda, Paul acabava de iniciar as gravações de seu novo álbum e a novidade seria uma tentativa de desestabilizá-lo. A provocação era clara: John jamais o chamara de “Macca”. Estava aí um sinal do sarcasmo do velho companheiro de banda.
Paul vestiu o paletó e seguiu para o Abbey Road sem avisar ninguém. Tinha em mente a urgência de evitar que qualquer rumor chegasse à imprensa. Se fosse rápido, talvez convencesse os ex-companheiros a não embarcar em mais uma ideia narcisista e egocêntrica de John. Pensou em passar antes no escritório de seu advogado mas achou que assim levantaria especulações desnecessárias.
Entrou no estúdio pela porta dos fundos para não levantar suspeitas. O prédio estava em silêncio e não havia ninguém no escritório. Caminhou na ponta dos pés para tentar captar qualquer movimentação estranha até se aproximar do estúdio principal.
Pelo vidro da sala de gravação, Paul pôde ver a cabeça balançante de Ringo sentado à bateria. George, como sempre, estava quieto num canto empunhando sua Strato surrada. John, situado bem no meio da sala, tocava sua semi-acústica enquanto cantarolava o refrão de “Don´t Let Me Down”. À sua esquerda, um baixo Hofner acomodado num pedestal aguardava seu instrumentista.
De súbito, McCartney sentiu um toque em seu ombro. Era Linda que o acordava para anunciar que Lennon acabara de ser assassinado em frente ao edifício Dakota.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Mudança*
*Crônica publicada na edição 1048 do Jornal Observador
Recostado lateralmente no mourão da porteira, pude observar o terreiro vazio. O ciscar interminável das galinhas, o pio desesperado dos pintinhos perdidos e a coreografia do galo-rei já não existiam mais. Dali pra frente, o pomar seria de propriedade exclusiva dos pássaros. O jambeiro, que por diversas vezes testemunhara o nascimento de crônicas e a leitura de clássicos da literatura universal, não voltaria a ver este humilde adepto das letras deitado na rede fixada em seu tronco.
Ainda é perceptível o ruído do caminhão que acabara de passar por mim. Transporta móveis, eletrodomésticos e outras quinquilharias inúteis acumuladas durante todos esses anos. Simbolicamente fui o último a deixar o sítio. Logo eu, que hesitara em estabelecer residência ali dez anos antes.
A nova residência, situada a cerca de 400 metros em linha reta, pode ser vista dali. Apenas um pequeno vale separa a propriedade da zona urbana. Ainda assim, as coisas devem mudar um pouco, já que será difícil ouvir Led Zeppelin no volume máximo ou tocar guitarra com o amplificador no talo sem despertar a ira dos vizinhos.
Contudo, a proposta é refazer o pomar pois o quintal é igualmente enorme. Mas dessa vez utilizarei mudas compradas. É mais fácil e prático do que fazer eclodir as sementes para só depois plantá-las. Além de gerar frutos, sombra e atrair pássaros, as futuras árvores terão a responsabilidade de acomodar a velha rede, agora esquecida num canto qualquer da nova morada. Milho já tem. É uma pequena roça que deve garantir – neste ano ainda – matéria prima para a produção de pamonha, bolo de milho e curral. Não se anime, é tudo em escala familiar.
Penso no processo de readaptação em ambiente urbano. Isso porque o meu quarto está voltado para a rua e não será tão fácil, pelo menos no início, ignorar o fluxo de ônibus e veículos quem tem início por volta das 5 da manhã. Isso sem levar em consideração o movimento em plena madrugada de transeuntes barulhentos. Talvez seja castigo: por muitas noites andei em grupo pelas ruas com o violão em punho celebrando a vida. Não vou negar que ainda faço isso.
Por outro lado, minha nova janela vai garantir luminosidade durante a maior parte do dia, perfeito para a leitura. No momento finalizo “A Sangue Frio”, de Trumam Capote, um clássico do jornalismo literário.
“E vou viver as coisas novas que também são boas, o amor, humor das praças cheias de pessoas. Agora eu quero tudo, tudo outra vez”.
Sem hesitar, está claro que Belchior tem razão.
Recostado lateralmente no mourão da porteira, pude observar o terreiro vazio. O ciscar interminável das galinhas, o pio desesperado dos pintinhos perdidos e a coreografia do galo-rei já não existiam mais. Dali pra frente, o pomar seria de propriedade exclusiva dos pássaros. O jambeiro, que por diversas vezes testemunhara o nascimento de crônicas e a leitura de clássicos da literatura universal, não voltaria a ver este humilde adepto das letras deitado na rede fixada em seu tronco.
Ainda é perceptível o ruído do caminhão que acabara de passar por mim. Transporta móveis, eletrodomésticos e outras quinquilharias inúteis acumuladas durante todos esses anos. Simbolicamente fui o último a deixar o sítio. Logo eu, que hesitara em estabelecer residência ali dez anos antes.
A nova residência, situada a cerca de 400 metros em linha reta, pode ser vista dali. Apenas um pequeno vale separa a propriedade da zona urbana. Ainda assim, as coisas devem mudar um pouco, já que será difícil ouvir Led Zeppelin no volume máximo ou tocar guitarra com o amplificador no talo sem despertar a ira dos vizinhos.
Contudo, a proposta é refazer o pomar pois o quintal é igualmente enorme. Mas dessa vez utilizarei mudas compradas. É mais fácil e prático do que fazer eclodir as sementes para só depois plantá-las. Além de gerar frutos, sombra e atrair pássaros, as futuras árvores terão a responsabilidade de acomodar a velha rede, agora esquecida num canto qualquer da nova morada. Milho já tem. É uma pequena roça que deve garantir – neste ano ainda – matéria prima para a produção de pamonha, bolo de milho e curral. Não se anime, é tudo em escala familiar.
Penso no processo de readaptação em ambiente urbano. Isso porque o meu quarto está voltado para a rua e não será tão fácil, pelo menos no início, ignorar o fluxo de ônibus e veículos quem tem início por volta das 5 da manhã. Isso sem levar em consideração o movimento em plena madrugada de transeuntes barulhentos. Talvez seja castigo: por muitas noites andei em grupo pelas ruas com o violão em punho celebrando a vida. Não vou negar que ainda faço isso.
Por outro lado, minha nova janela vai garantir luminosidade durante a maior parte do dia, perfeito para a leitura. No momento finalizo “A Sangue Frio”, de Trumam Capote, um clássico do jornalismo literário.
“E vou viver as coisas novas que também são boas, o amor, humor das praças cheias de pessoas. Agora eu quero tudo, tudo outra vez”.
Sem hesitar, está claro que Belchior tem razão.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
O "Causo" da Carteira*

*Crônica publicada na edição 1046 do Jornal Observador
Venâncio, o experiente capataz da fazenda Nova Esperança, surpreendeu-se com o que acabara de ouvir no galpão.
- Juquinha, prepare um cavalo. Irei para a lida com vocês hoje – avisou coronel Rolando, o imponente proprietário daquelas terras.
O anúncio foi recebido com apreensão pelo capataz, que continuava a encilhar seu animal em silêncio.
- Vamos pra “Água da Onça” hoje? – perguntou coronel Rolando.
- Não coronel. A lida hoje é no “Lajeadinho” – respondeu Venâncio, para a surpresa dos campeiros.
Era mentira. A proposta inicial era definitivamente a “Água da Onça”, porção da fazenda de difícil acesso que ficava a uns seis quilômetros da sede. A região era ocupada pelo melhor gado da propriedade: quase duas mil cabeças da raça nelore. Já “Lajeadinho” era um local bem próximo, cujo rebanho era composto por bezerros recém-desmamados, de fácil manejo.
Sem qualquer hesitação aparente, os outros peões – alguns deles já sobre a montaria – entenderam o motivo da mudança. Estava claro que a ida do coronel dificultaria o desempenho das atividades já que o patrão era conhecido por manter um trote muito aquém dos campeiros. Por outro lado, o estado de saúde do coronel também preocupava Venâncio.
- E se esse homem morre por essas barrocas – pensou com seus botões. Porém não ousou confrontar o patrão. Tentar dissuadi-lo seria bater em ferro frio.
Os cavaleiros cruzaram o “Vale dos Açudes” quando o sol ainda não tinha despontado completamente. Ali havia dezenas de lagos cercados por um imenso taboal e era comum encontrar durante a noite pescadores de traíra, apesar das inúmeras placas com o alerta “Propriedade Particular – Proibido Caça e Pesca”. Embora vigorasse a determinação, os campeiros só perturbavam intrusos surpreendidos com redes ou tarrafas.
Em pouco mais de três horas, todo o trabalho fora cumprido e tanto o patrão, como os campeiros, voltaram felizes para a sede. O coronel por ter espairecido um pouco; os peões por ter não terem o azar de vivenciar o patrão sofrer outro ataque do coração em pleno mato.
Mas, já nas proximidades do galpão, a vibração positiva foi cortada por um grito angustiado: coronel Rolando perdera sua carteira durante a lida. Imediatamente, os peões retomaram com o patrão todo o trecho percorrido durante a empreitada.
Nem mesmo a convocação das mulheres e dos filhos de todos os empregados da fazenda foi suficiente para encontrar o artefato perdido. Já era quase noite quando o coronel Rolando ordenou que os campeiros ateassem fogo nos piquetes pelos quais haviam passado, para o espanto dos colonos da fazenda. Em silêncio, julgavam desnecessária uma atitude tão extremista como aquela. Até então o patrão era visto como uma pessoa razoavelmente boa de coração, mas aquela ordem trouxe à tona um homem até então desconhecido, um rancoroso, que temia que sua carteira fosse encontrada e “omitida” por algum de seus empregados.
Ainda hoje, quarenta anos depois da morte do coronel Rolando, há relatos diversos de pescadores que se aventuram à noite pela região. Um deles dá ciência de que, em noites de lua cheia, é possível avistar no horizonte a silhueta de um homem rechonchudo e agoniado que procura algo entre as ramadas do capim colonião.
- Juquinha, prepare um cavalo. Irei para a lida com vocês hoje – avisou coronel Rolando, o imponente proprietário daquelas terras.
O anúncio foi recebido com apreensão pelo capataz, que continuava a encilhar seu animal em silêncio.
- Vamos pra “Água da Onça” hoje? – perguntou coronel Rolando.
- Não coronel. A lida hoje é no “Lajeadinho” – respondeu Venâncio, para a surpresa dos campeiros.
Era mentira. A proposta inicial era definitivamente a “Água da Onça”, porção da fazenda de difícil acesso que ficava a uns seis quilômetros da sede. A região era ocupada pelo melhor gado da propriedade: quase duas mil cabeças da raça nelore. Já “Lajeadinho” era um local bem próximo, cujo rebanho era composto por bezerros recém-desmamados, de fácil manejo.
Sem qualquer hesitação aparente, os outros peões – alguns deles já sobre a montaria – entenderam o motivo da mudança. Estava claro que a ida do coronel dificultaria o desempenho das atividades já que o patrão era conhecido por manter um trote muito aquém dos campeiros. Por outro lado, o estado de saúde do coronel também preocupava Venâncio.
- E se esse homem morre por essas barrocas – pensou com seus botões. Porém não ousou confrontar o patrão. Tentar dissuadi-lo seria bater em ferro frio.
Os cavaleiros cruzaram o “Vale dos Açudes” quando o sol ainda não tinha despontado completamente. Ali havia dezenas de lagos cercados por um imenso taboal e era comum encontrar durante a noite pescadores de traíra, apesar das inúmeras placas com o alerta “Propriedade Particular – Proibido Caça e Pesca”. Embora vigorasse a determinação, os campeiros só perturbavam intrusos surpreendidos com redes ou tarrafas.
Em pouco mais de três horas, todo o trabalho fora cumprido e tanto o patrão, como os campeiros, voltaram felizes para a sede. O coronel por ter espairecido um pouco; os peões por ter não terem o azar de vivenciar o patrão sofrer outro ataque do coração em pleno mato.
Mas, já nas proximidades do galpão, a vibração positiva foi cortada por um grito angustiado: coronel Rolando perdera sua carteira durante a lida. Imediatamente, os peões retomaram com o patrão todo o trecho percorrido durante a empreitada.
Nem mesmo a convocação das mulheres e dos filhos de todos os empregados da fazenda foi suficiente para encontrar o artefato perdido. Já era quase noite quando o coronel Rolando ordenou que os campeiros ateassem fogo nos piquetes pelos quais haviam passado, para o espanto dos colonos da fazenda. Em silêncio, julgavam desnecessária uma atitude tão extremista como aquela. Até então o patrão era visto como uma pessoa razoavelmente boa de coração, mas aquela ordem trouxe à tona um homem até então desconhecido, um rancoroso, que temia que sua carteira fosse encontrada e “omitida” por algum de seus empregados.
Ainda hoje, quarenta anos depois da morte do coronel Rolando, há relatos diversos de pescadores que se aventuram à noite pela região. Um deles dá ciência de que, em noites de lua cheia, é possível avistar no horizonte a silhueta de um homem rechonchudo e agoniado que procura algo entre as ramadas do capim colonião.
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