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sexta-feira, 10 de julho de 2009

Quem tem violão, tem casa


Rodoviária Barra Funda, meados de janeiro.

O questionamento foi espontâneo e imediato.
– Cadê o violão, seu caipora? Não acredito que você não trouxe, resmungou prontamente o Felippe antes de qualquer cumprimento oficial.

A pergunta, inevitável, já estava estampada em sua cara antes mesmo de se aproximar, enquanto ainda costurava transeuntes que perambulam pela Barra Funda ao mesmo tempo em que tentava identificar por cima do povo o volume que mais se assemelhava ao instrumento entre minhas malas.
– Vamos levar o seu, retruquei, na tentativa de suavizar a questão.
– Acontece que o meu está em Piraju, lembra?
– Azar então, sentenciei.

A culpa não era minha. Um ruído na comunicação não permitiu que eu compreendesse durante a conversa telefônica na noite anterior que estávamos sem violão em São Paulo. Pior, sem violão a caminho de São Thomé das Letras. No metrô, ouvi ainda algumas vezes a acusação que teria deliberadamente “esquecido” o companheiro com cordas mas o assunto pareceu perder força e parecia definitivamente encerrado pela tarde.

O violão voltou à ordem do dia quando desembarcamos por volta das 4 horas da manhã em Três Corações. Depois de uma viagem infernal num ônibus que desconhecia acento reclinável, seriamos obrigados a moscar até as 6 horas numa rodoviária fria. Um violãozinho ali cairia bem pra passar as horas.

Mas foi só em São Thomé que a sangria se tornou desatada. Durante a manhã, ainda não havia ninguém com o instrumento na rua mas a coisa mudou de figura durante a tarde e ele estava presente em praticamente todas as rodinhas espalhadas pela cidade.

Na primeira noite, depois de ser responsabilizado diversas vezes por não ter levado o violão, seguimos para a pirâmide de mãos abanando. Aguados de vontade de tocar e cantar no alto da montanha, tivemos que nos contentar em participar de uma roda de malucos que só tocavam músicas idiotas do igualmente idiota Ventania. Triste.

A culpa era minha. Nessa altura eu já havia somatizado a responsabilidade por ter esquecido o violão. Era hora de agir. Tentei emprestar um do dono da pensão mas ele desconversou. Disse que violão é algo pessoal e não se empresta. (Chuveiro é algo igualmente pessoal e não se empresta. Por isso, estou eximido de qualquer culpa por ter quebrado o da pensão ao tentar fazê-lo esquentar).

Pelas ruas, nenhum drogado ou pseudo-hippie sabia onde eu encontraria um instrumento para alugar. Resignado, eu já me preparava para passar à posteridade como o causador da maior iniquidade sobre a Terra desde a crucificação de Cristo quando o cara do bar de pedra disse que me arrumaria um violão. O preço da redenção: R$ 15 pelos três dias em que ficaríamos na cidade.

Não “paguei caro” por ter esquecido o violão, ao contrário do que ajuizava meu companheiro de viagem.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Fogo!


A considerar pelo mapa, a rota parecia tranquila. Bastava atravessar a pedreira e pronto: estaríamos na Gruta do Carimbado. A ideia sensacional evitaria que caminhássemos cinco quilômetros de asfalto e mais um quilômetro e meio de estrada de terra. Afinal, nem eu nem o Felippe gostaria de vivenciar de novo aquilo que passamos no primeiro dia em São Thomé das Letras, quando descemos a pé até o Vale das Borboletas e quase não voltamos.

A proposta era tão boa que ganhou adesão do gordinho asmático, de seu amigo e posteriormente da namorada ruiva do amigo. A mesma ruiva que o Felippe classificara em alto e bom som de “ruivinha bonitinha” momentos antes enquanto ela se aproximava do coreto em que estávamos. (Pensando se tratar apenas de uma moça qualquer a passear pela praça, o Felippe teceu comentários a respeito dos dotes físicos da adolescente até então desconhecida, que se aproximou da roda e se abraçou ao namorado, exatamente o amigo do gordinho, um dos interlocutores da roda).

Iríamos os cinco para a gruta pela rota alternativa. Partiríamos às três da tarde. Fechamos os detalhes, local de encontro para a saída e o que levar na empreitada. Tudo certo, nada combinado. Os três não apareceram. Para a sorte deles e muito provavelmente para a nossa também.

Partimos eu e o Felippe, atravessamos a rodoviária e adentramos a enorme pedreira que impressiona pelo intenso movimento de trabalhadores e caminhões. As pedras extraídas do solo são brancas e, depois de amontoadas em grandes porções, simulam altas montanhas cobertas de neve. Extração que é feita com dinamite, diga-se de passagem, fato que não desconhecíamos. O que desconhecíamos é que as explosões ocorriam entre quinze horas e dezessete horas. “Cuidado com o fogo”, havia dito um peão logo na entrada. Nas diversas placas avistadas durante a tentativa de encontrar o caminho o mesmo lembrete: “Ao ouvir a sirene, proteja-se”.

Não ouvimos a sirene, apenas uma explosão deflagrada provavelmente a uns cem metros dali. O acontecido foi o bastante para que buscássemos uma rota alternativa na rota alternativa. Chega de procurar trilhas entre montanhas brancas e experimentar a sensação de estar andando em círculos. O negócio era sumir dali o mais rápido possível e chegar até a terra firme, mesmo que fosse necessário escorregar pelas montanhas de pedras soltas e correr o risco de ser soterrado por uma avalanche autoprovocada. “É um milagre estarmos vivos”, disse o Felippe ao atingirmos o solo depois de infinitas ladeiras a 75 graus, inúmeras ameaças de pequenas avalanches e três explosões longínquas.

“Ainda bem que o gordinho asmático não veio”, pensamos. Ele teria sido mortalmente ferido numa queda e nem nos daríamos ao trabalho de socorrê-lo. Já se fosse a ruivinha ...